Na Alemanha nazista, o roubo de arte representava mais do que saques esporádicos realizados pelos militares. Na verdade, tratava-se de uma medida oficial do governo,
Conhecida como pilhagem nazista, a prática consistia em localizar e roubar coleções de arte, bibliotecas, cerâmicas e joias de museus e de casas de famílias ricas, em sua maioria judias. Ao longo dos anos, milhares de obras foram levadas e, posteriormente, destruídas, vendidas em leilões, encaminhadas a esconderijos secretos, entre tantos outros destinos incertos.
Por isso, muitas dessas obras ainda não foram encontradas e devolvidas aos seus respectivos donos, mesmo mais de 80 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial.
Recentemente, uma dessas pinturas ressurgiu de uma forma um tanto peculiar: em um anúncio imobiliário de uma propriedade litorânea da Argentina.
Os proprietários anunciaram a mansão na internet. Na foto de uma sala de estar, era possível ver a pintura de uma mulher, bem acima de um sofá verde. O jornal holandês Algemeen Dagblad percebeu que se tratava da obra Portrait of a Lady, do pintor italiano Giacomo Ceruti, roubada de uma galeria privada de arte em Amsterdã pertencente ao judeu Jacques Goudstikker.
Goudstikker fugiu da Holanda após a ocupação do país pelas forças alemãs, em 1940, e morreu em um naufrágio enquanto fugia com a família. Estima-se que ele teve mais de mil obras roubadas de sua coleção. Até hoje, apenas 200 peças foram recuperadas.
A obra achada na Argentina foi produzida no século 18 e, desde o fim da guerra, não havia nenhuma informação sobre o paradeiro da peça. Estima-se que o quadro valha mais de R$ 1 milhão.
Hoje, sabemos que Portrait of a Lady estava na casa de Patricia Kadgien, filha do oficial nazista Friedrich Kadgien, responsável por supervisionar as pilhagens nazistas e que fugiu para a Argentina após o fim da guerra, assim como diversos outros oficiais. Ele morreu em 1978, sem ser julgado por seus crimes de guerra.
Após ser informada do paradeiro da obra, a polícia argentina investigou a casa – mas a pintura não estava mais lá, muito menos nos anúncios online da propriedade. Eles encontraram, em contrapartida, desenhos e documentos que provavelmente remontam à Segunda Guerra Mundial e que agora estão sendo investigados.
Kadgien e seu marido foram acusados de ocultar a pintura. O caso foi parar na Justiça argentina, que recuperou a obra e ordenou a devolução do quadro para Marei von Saher, a única herdeira sobrevivente de Jacques Goudstikker. em Para evitar o julgamento criminal por ocultar o quadro, Kadgien concordou em devolver a pintura, além de doar mais de US$ 3 mil.
A decisão foi inédita para o Judiciário argentino, que nunca tinha restituído obras roubadas pelos nazistas.
