A cada ano, o Brasil perde 39.800 crianças que morrem antes dos cinco anos de idade. A taxa, referente a 2023, é de cerca de 14 a cada mil nascidos vivos, mas não foi sempre assim: em 1980, 96 a cada mil bebês brasileiros morriam antes dos cinco anos de idade.
No mundo, hoje em dia, a mesma taxa é de 37 a cada mil nascidos vivos. Na prática, isso representa 4,67 milhões de mortes por ano.
Os números são trágicos. Embora hoje existam mais recursos de cuidado com a saúde do que nunca, muitas crianças ainda nascem em condições que parecem paradas no tempo. Cada uma dessas mortes representa o fim precoce de uma vida cheia de potencial. São milhões de famílias dilaceradas. Mas, mais do que isso, as mortes de bebês e crianças deveriam provocar luto coletivo por serem, em grande parte, evitáveis.
Em 2023, mais crianças morreram de pneumonia (610 mil), que é evitável e tratável, do que todas as mortes de adultos em homicídios, conflitos armados e guerras (595 mil).
Mundialmente, as doenças infecciosas, como a própria pneumonia, a malária, doenças diarreicas e sarampo, matam quase tanto quanto as complicações no parto. Essas duas categorias, juntas, são responsáveis por mais de 40% das mortes infantis [veja gráfico mundial abaixo].

O Brasil já esteve nesse lugar. Em 1980, 34% das mortes de crianças com menos de cinco anos aconteciam por causa de diarreia [veja no gráfico abaixo]. Já conhecemos a receita para evitar esse tipo de morte e ela é fundamentalmente simples: água limpa. Hoje, são 1,5%. Em 1980, elas levavam 270 crianças brasileiras por dia – em 2023, foram 590 no ano inteiro.
A diminuição tem a ver com melhorias no saneamento básico, acesso a nutrição, vacinação e no acompanhamento médico. Vale destacar, entretanto, que no saneamento ainda há um longo caminho pela frente: 38,6% das moradias brasileiras não têm seu esgoto coletado e nem tratado. O abastecimento de água potável canalizada não chega para 16,4% dos brasileiros.

Deborah Malta, professora da Universidade Federal de Minas Gerais e coordenadora do relatório Global Burden of Disease no Brasil, explica que as mortes infantis dão pistas do estado de outros indicadores sociais, como acesso ao acompanhamento médico, saneamento básico e vacinas.
“O Brasil passou por uma transição epidemiológica nos últimos anos, e ela se dá com muito mais força após a implantação do SUS [Sistema Único de Saúde, criado em 1988]”, diz. “As políticas de proteção social têm tudo a ver com a sobrevivência dessas crianças. Então, é por isso que é tão importante o Bolsa Família, o SUS, por isso que é tão importante programas como o PNI [Programa Nacional de Vacinação] e por isso é tão importante vacinar.”
As vacinas essenciais são oferecidas gratuitamente pelo SUS, mas isso não necessariamente é assim no resto do mundo. Em vários países, as mudanças sociais que favorecem a transição epidemiológica simplesmente não chegaram. Não à toa, a maior parte das mortes evitáveis se concentra em países da África Subsaariana e no sul da Ásia.
Hoje, um bebê nascido na Nigéria tem 8,5 vezes mais chances de morrer antes de completar cinco anos do que um nascido no Brasil. E qualquer bebê brasileiro tem 7 vezes mais chances de morrer antes dos cinco anos do que os nascidos no Japão, Finlândia e Suécia, países que têm as menores taxas de mortalidade infantil.
Nesses países (e no Brasil) os distúrbios congênitos são proporcionalmente mais frequentes [veja gráfico abaixo] – não porque tenham aumentado, de fato, mas porque as mortes evitáveis diminuíram muito.

Hoje, a maioria das mortes de bebês e crianças brasileiros é causada por fatores difíceis de controlar, como asfixia e traumas durante o parto, partos prematuros, doenças cardiovasculares e intestinais. Mesmo assim, Deborah afirma que, em alguns casos, os desfechos poderiam ser diferentes com o devido acompanhamento médico. Ou seja, ainda há pano para manga para melhorar.
Fontes: Hannah Ritchie, Sophia Mersmann e Fiona Spooner (Our World in Data). Dados: relatório Global Burden of Disease (GBD 2025). Agradecimento: Deborah Malta, professora da Universidade Federal de Minas Gerais e coordenadora do relatório GBD no Brasil.
