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Eleições 2026: O que dizem os presidenciáveis sobre meio ambiente e Amazônia?

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De 2015 a 2025, a humanidade registrou os 11 anos mais quentes da História desde que a temperatura do planeta começou a ser medida, na década de 1850. Calor recorde, secas mais longas e desastres naturais tornam-se cada vez mais frequentes, e 77% dos brasileiros já foram afetados, em alguma medida, por eventos climáticos extremos. 

A explicação por trás da escalada da crise ambiental é um consenso entre especialistas: as mudanças climáticas. No Brasil, a expansão da agropecuária e do desmatamento têm alterado a longo prazo a temperatura e o regime de chuvas do País com o lançamento de gases de efeito estufa na atmosfera. 

Essas mudanças estão, claro, intimamente relacionadas à Amazônia. A floresta funciona como uma reguladora do clima no País agindo na distribuição de umidade, que, em forma de “rios voadores”, leva chuva ao Centro-Oeste, ao Sudeste e ao Sul.

Mas com o avanço de atividades ilegais na região, principalmente entre os anos 1980 e 2000, a maior floresta tropical do mundo está cada vez mais quente e menos chuvosa. De acordo com um artigo publicado na revista Nature, aproximadamente 75% da redução das chuvas e 16,5% do aumento da temperatura do ar da Floresta Amazônica estão ligados à perda de cobertura florestal.

E os impactos vão muito além da vegetação. A redução da umidade afeta a segurança hídrica, a agricultura e a saúde das pessoas em todo o País. Também intensifica eventos extremos, como as secas históricas de 2023 e 2024 e as queimadas. Além, claro, de colocar em risco o modo de vida de povos indígenas e comunidades tradicionais, para quem rios, córregos e igarapés são fonte de sustento. 

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Discutir mudanças climáticas e Amazônia é discutir, também, a vida de milhões de brasileiros. 

Então quais seriam, exatamente, as propostas dos candidatos à Presidência da República para o meio ambiente e para a Amazônia para os próximos quatro anos? Selecionamos trechos dos planos de governo dos presidenciáveis nas eleições de 2026 que englobam o tema e pedimos que especialistas avaliassem as propostas. 

Esta reportagem faz parte do projeto Ciência e Saúde nas Eleições, uma iniciativa do Instituto Questão de Ciência (IQC) em parceria com as revistas VEJA SAÚDE e Superinteressante para analisar as propostas dos candidatos à presidência nas áreas de ciência, tecnologia e saúde. Confira aqui as reportagens da Super e aqui as de VEJA SAÚDE.

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Ouvimos David Montenegro Lapola, pesquisador e coordenador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (CEPAGRI) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e Jean Ometto, pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil (INPE) e coordenador do Centro de Ciências do Sistema da Terra (CCST-INPE). 

Os pesquisadores opinaram sobre as propostas às cegas, sem a identificação prévia dos candidatos autores de cada plano, para evitar vieses. O candidato do PT, por exemplo, foi identificado como “Candidato 1”; o do PL era “Candidato 2”; e assim por diante. Dessa forma, os entrevistados não sabiam a quem pertencia cada proposta.

Em linhas gerais, tanto Lapola quanto Ometto chegaram à mesma conclusão sobre as propostas: falta detalhamento. Na maioria dos casos, o candidato apresenta um plano sem que haja maiores explicações sobre como seria a implementação efetiva dessas estratégias. Não há, de fato, um planejamento em curso para que as propostas sejam atingidas. 

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Edmilson Costa (PCB), por exemplo, diz que vai acabar com o desmatamento, mas não explicita como. Samara Martins (UP) tem objetivos como combate ao desmatamento e garimpo, porém não especifica como os alcançará. Já Lula (PT) quer investir na adaptação às mudanças climáticas nas cidades. Resta saber a fonte dos recursos.

Hertz Dias (PSTU) faz críticas ao agronegócio, à mineração, à exploração de petróleo na Margem Equatorial, além de propor uma reforma agrária. Assim como os companheiros de pleito, não disse como atingiria essas mudanças. Para Jean Ometto, o plano do candidato “é mais um manifesto do que uma proposta de governo”.

Muitos candidatos ainda mencionam estímulos para o hidrogênio verde, um tipo de energia renovável que tem zero emissão de carbono, mas não há detalhamento sobre qual a estratégia para que o combustível atinja escala de comercialização.

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Flávio Bolsonaro (PL) quer identificar e combater a grilagem de terras, sem criar novas obrigações ou custos desnecessários para o produtor rural que atua dentro da lei. “O morador da Amazônia, o ribeirinho, o pequeno produtor, o extrativista, não será tratado como criminoso por tirar da terra o seu sustento”, diz a proposta do candidato.

Na opinião de David Lapola, a falta de distinção clara entre os grupos gera insegurança jurídica, pois a noção de quem é “morador da floresta” fica aberta a interpretações ambíguas – o que pode abrir espaço para facilitar o desmatamento da floresta. 

Outro exemplo contraditório é Lula (PT). Ele afirma focar em planos de adaptação às mudanças climáticas para o próximo mandato, enquanto não condena a exploração de petróleo na margem equatorial da Amazônia. Já Romeu Zema (Novo) menciona que irá atrair investimentos privados para obras de contenção de desastres naturais, o que “não tem muita lógica”, para Lapola.

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Uma omissão importante na maioria das propostas é a falta de planos de adaptação às mudanças climáticas, ou seja, como o Governo Federal planeja lidar com os eventos extremos que já são realidade e cada vez mais frequentes. 

Também há lacunas como: Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) não citam como irão lidar com a redução do desmatamento. Santos e Bolsonaro não citam, em nenhum momento, o termo “mudanças climáticas”. Nenhum candidato falou de IA e os custos ambientais de grandes centros de computação e como o Brasil se posicionará em relação a isso.

No geral, ainda que com muitos poréns, Lula (PT) e Ronaldo Caiado (PSD) tiveram os planos mais robustos. Especificamente no caso do candidato do PSD, ambos os especialistas apontam que é um plano bem organizado e estruturado, com foco em ações novas que não foram tentadas na gestões passadas.

Não estão incluídos nas análises os candidatos Clariana Barão (DC), Rui Costa Pimenta (PCO) e Wilson Grassi (Democrata), porque não foram encontradas propostas específicas e detalhadas sobre o tema nos programas de governo. 

A seguir, veja, em detalhes, o que cada candidato propõe para o meio ambiente e para a Amazônia para os próximos quatro anos. Você ainda pode conferir aqui o resumo das propostas.

Os planos de governo de cada candidato

  • Lula (PT)

O plano menciona dados e projetos do governo anterior e apresenta medidas de ampliação de programas já existentes. 

Uma das principais propostas é o investimento em biocombustíveis e fontes de energia renováveis, visando promover a transição energética do País. Ao mesmo tempo, o plano também menciona a exploração de combustíveis fósseis e do gás natural para garantir a segurança energética (ou seja, a capacidade do Brasil fornecer sua própria energia à população). Este seria um meio de financiar a transição energética. A Petrobras, por sua vez, teria parte da atuação direcionada aos biocombustíveis.

Quando o assunto é a Amazônia, Lula propõe o uso do bioma para o desenvolvimento de insumos farmacêuticos ativos (IFAs), que são matérias-primas utilizadas em medicamentos. A Amazônia é apresentada como eixo de desenvolvimento nacional, útil para atividades industriais, farmacêuticas, alimentares e até energéticas.

As mudanças climáticas também são reconhecidas pelo plano, que propõe um programa nacional de resiliência climática no campo. Ele atuaria na irrigação, conservação dos solos, no monitoramento meteorológico, entre outras funções. O documento ainda prevê o fortalecimento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para modernizar a agricultura e a pecuária.

O plano detalha medidas de adaptação das cidades aos eventos climáticos extremos. A proposta é investir em soluções para antecipar esses eventos e socorrer a população rapidamente. Planeja-se investir R$25 bilhões em obras para conter deslizamentos de terra e enchentes.

Lula também aborda a necessidade de diminuir o desmatamento e reforça o compromisso de eliminar o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030.

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Jean Ometto, pesquisador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), avalia o documento como um balanço da gestão anterior, sem propostas realmente novas. “As propostas, a abordagem e a ambição ambiental seguem a lógica da gestão atual. O plano está voltado a projetos que já estão em vigor, como o Plano Clima, Fundo Clima, NDC Brasileira, Mercado Regulado de Carbono e outras propostas que se consolidaram nos últimos anos”, explica.

Ele critica a proposta de exploração de combustíveis fósseis. “Há uma tensão entre as metas de contenção das mudanças climáticas e a expansão da exploração de petróleo e gás natural como um mecanismo para financiar a transição energética. Isso é, no meu entendimento, falacioso”, afirma.  Jean Ometto aponta que os investimentos em exploração de petróleo e gás demoram muito para gerar retorno financeiro. “Com o crescimento de energia renovável, o preço do petróleo pode ficar até menos interessante no futuro”, completa.

David Lapola,  coordenador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (CEPAGRI) da Unicamp, ainda comenta que aparentemente um dos focos do plano é reduzir perdas causadas pelas mudanças climáticas no setor agrícola. 

Também faz uma ressalva sobre a menção do plano de governo ao Roteiro Baku–Belém. Estabelecido entre a COP 29 e a COP 30, o roteiro busca alcançar US$1,3 trilhão em financiamento climático por ano até 2035. Teoricamente, o montante seria utilizado por países em desenvolvimento. “A maior parte desse dinheiro segue não investido e o pouco que foi desembolsado pelos países é na forma de empréstimo e não fundo perdido como deveria ser”, diz o especialista.

Sobre territórios indígenas, o plano é breve: “Menciona que irá avançar na destinação de terras públicas para unidades de conservação e terras indígenas, mas não usa o termo demarcação”, diz Lapola.

  • Flávio Bolsonaro (PL)

O plano promete concluir, iniciar e executar uma série de obras públicas, como o Ramal do Apodi, o Ramal do Salgado, a Adutora do Seridó, o Canal do Xingó, entre outras. Também defende o investimento em biocombustíveis e biogás e assume o compromisso de zerar o desmatamento ilegal até 2029. Ainda afirma que consolidará o mercado regulado de carbono no Brasil.

O principal lema do plano de governo de Flávio é “Preservar e produzir ao mesmo tempo”. O meio ambiente é conceituado como um ativo verde do Brasil que deve, ao mesmo tempo, ser preservado e utilizado para a produção. “O  meio ambiente como um ativo estratégico, não como um obstáculo ao desenvolvimento”, diz um trecho do documento.

Sobre crimes ambientais, como grilagem e desmatamento ilegal, o documento propõe o uso ferramentas com inteligência artificial e imagens de satélite para fiscalização. Em diversos trechos, reitera a distinção entre criminosos ambientais e produtores rurais que vivem na floresta e atuam conforme a lei, chamados de “parceiros”. Também defende a criação de incentivos econômicos (Pagamento por Serviços Ambientais), para remunerar os produtores e proprietários rurais que contribuam para a conservação da vegetação e dos recursos hídricos de seus territórios. 

O plano defende a bioeconomia, propondo o desenvolvimento de fármacos e cosméticos baseados na natureza ao lado desses “moradores da floresta” e extrativistas. Afirma que povos indígenas e quilombolas terão autonomia sobre as atividades produzidas em seus territórios.

Propõe a eliminação de superposições entre Ibama, Funai e ICMBio (ou seja, situações em que o mesmo território é protegido por mais de uma instituição). Também prevê medidas para aumentar a transparência de ONGs que atuam na região amazônica.

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Lapola reconhece algumas contradições no plano. Segundo ele, ao mesmo tempo que Flávio se compromete a zerar o desmatamento ilegal, o plano afirma que não irá tratar as populações da floresta como criminosas. “Isso pode ensejar insegurança jurídica, pois o conceito de morador da floresta pode ser muito relativizado. Também é paradoxal que o plano não menciona mudanças climáticas, mas cita que atuará na regulação do mercado de carbono”, explica. Sobre a fiscalização de ONGs, o especialista aponta o tema como delicado, que já foi motivo de polêmicas em gestões passadas.

Ometto avalia que o foco principal do plano está na produção. “Não há menção sobre questões de demarcação de terras indígenas ou unidades de conservação, por exemplo. A Amazônia ocupa uma posição estratégica, mas as propostas estão relacionadas ao manejo e à produção”, afirma. 

  • Augusto Cury (Avante)

O plano propõe ampliar o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, que ajuda produtores rurais a protegerem suas propriedades contra riscos climáticos. Também propõe obras públicas para enfrentar eventos climáticos. 

Defende investimentos em energia renovável, hidrogênio verde (com a meta de posicionar o Brasil entre os três maiores exportadores do produto até 2035) e a regulamentação do mercado de carbono. Assim como Flávio Bolsonaro, Cury defende o Pagamento por Serviços Ambientais, que remunera produtores rurais que conservam seus territórios. 

Apresenta o projeto PENER-BR, que visa realizar um mapeamento das fontes de energia renovável que podem ser exploradas no País, por meio de uma plataforma de inteligência artificial. Outra meta é fazer com que o Brasil tenha 90% de sua matriz energética proveniente de fontes limpas até 2040. 

Já o projeto Floresta Viva BR busca criar um sistema nacional de monitoramento ambiental para detectar incêndios precocemente. O monitoramento seria realizado por meio de satélites, inteligência artificial, drones, sensores e uma central de comando 24 horas por dia. 

Por fim, o programa Amazônia Viva defende o desenvolvimento da região por meio de iniciativas sustentáveis em comunidades ribeirinhas, programas de infraestrutura e incentivos à preservação ambiental, entre outras ações. Também menciona a necessidade de reduzir os incêndios e o desmatamento. 

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Para Lapola, a rede de inteligência artificial para o mapeamento de energia renovável é um dos destaques do programa, assim como o Amazônia Viva. “Levar saneamento para essas cidades é fundamental”, pontua. 

Porém, ressalta que o programa Floresta Viva BR desconsidera alguns aspectos operacionais. “A distribuição de brigadas de incêndio e equipamentos por todo o território nacional pode ser algo muito caro. Há de se investir em prevenção, mas isso não é citado.” 

Ele também considera que o plano faz poucas menções ao desmatamento, aspecto igualmente apontado por Ometto, que diz: “Não vi nenhuma política sobre controle de desmatamento. O plano foca no incêndio, que não necessariamente está associado ao desmatamento. É um texto retórico.” Para ele, a meta de hidrogênio verde é ousada.

  • Romeu Zema (Novo)

O plano propõe tratar o meio ambiente como um ativo, incentivando o licenciamento ambiental e simplificando regras para indústrias e startups que trabalham com biodiversidade. Menciona o combate à grilagem e ao desmatamento ilegal por meio de monitoramento por satélite. Também promete avanços no Novo Marco do Saneamento por meio da atração de investimentos. Defende ainda planos para desenvolver o turismo nos biomas brasileiros. 

Zema busca regularizar a comercialização de créditos de carbono para o mercado internacional, criando um mercado voluntário e desburocratizado. Também promete investimentos em infraestrutura e tecnologia para prevenir e enfrentar desastres climáticos. Para isso, planeja expandir reservatórios e barragens, criar sistemas de monitoramento e investir em drenagem urbana para prevenir enchentes. O projeto buscaria investimentos privados. 

O plano ainda menciona a promoção de “educação ambiental sem radicalismo” em escolas e universidades. 

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Ometto avalia que o plano de governo de Zema segue o liberalismo, tratando o meio ambiente como um ativo financeiro e abordando, por exemplo, a desburocratização e a facilitação do licenciamento ambiental. “O plano traz um diagnóstico da questão ambiental, mas tem um tom de que a conservação trava o desenvolvimento. Isso é péssimo. O desenvolvimento não deriva da destruição ambiental. Já há diversos exemplos de que a destruição ambiental não traz mais recursos. Também não fala claramente sobre mudanças climáticas”, afirma.

Lapola elogia a proposta de combate ao desmatamento e à grilagem de terras. Porém, faz ressalvas sobre as formas de financiamento: “O plano menciona que irá atrair investimentos privados para obras de contenção de desastres naturais, o que não tem muita lógica.”  

  • Ronaldo Caiado (PSD)

O plano aborda medidas para proteger fronteiras, portos e aeroportos da região amazônica, com a implementação do Comando Nacional de Proteção de Fronteiras e Corredores Logísticos. A ideia é retomar a soberania do Estado em territórios ocupados por grilagem, garimpo ilegal, tráfico de drogas e outras atividade. 

Outro objetivo é a criação de uma estratégia de Saúde Amazônica no SUS, levando atendimento a comunidades isoladas, indígenas e ribeirinhas. 

O documento aponta a transição energética como um dos objetivos do governo, com iniciativas de descarbonização e biocombustíveis, que atrairiam investimentos internacionais. O plano reúne 16 propostas sobre meio ambiente, como a criação de um Pacto Nacional de Desenvolvimento Sustentável, melhorias nos processos de licenciamento ambiental (com exigências e burocracia proporcionais ao impacto do empreendimento) e investimentos em tecnologia para monitorar e antecipar desmatamentos, incêndios e atividades de mineração. Para isso, propõe utilizar drones, satélites e inteligência artificial. 

Também propõe a regulamentação do mercado de carbono e o Pagamento por Serviços Ambientais, além da criação de um programa de segurança hídrica. Promete acelerar a universalização do acesso à água e ao esgoto e implementar obras de drenagem e sistemas de alerta para prevenir desastres naturais. Afirma que pretende atualizar planos nacionais e municipais de adaptação climática. 

O documento traz outras medidas, como um programa nacional para implementar ônibus com menor emissão de carbono. Aborda o desenvolvimento de pesquisas de melhoramento genético de vegetais, com o objetivo de torná-los mais adaptados às mudanças climáticas.

Uma parte do plano é dedicada exclusivamente à Amazônia e reúne outras nove propostas específicas, como a criação de uma Plataforma Integrada de Governança Fundiária da Amazônia, que reuniria informações sobre as terras, identificaria sobreposições e desempenharia outras funções. O plano também busca aumentar a rastreabilidade da madeira para combater a comercialização ilegal.

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Lapola avalia o plano de Caiado como um dos mais robustos: “A visão de que a Amazônia está ‘ocupada’ por entes ilegais é relevante pois de fato há progressivamente cada vez mais presença do crime organizado no interior da região. Saúde na Amazônia também é necessária, assim como regularização fundiária – o candidato tem uma visão de que falta o ‘Estado’ na região, o que me parece bem apropriado”. 

Ao mesmo tempo, aponta algumas inconsistências do plano em relação à adaptação genética na agricultura e ao seguro rural: “A adaptação de cultivares na agricultura é muito importante, mas é bastante cara e leva tempo (em média, 10 anos para se chegar a um cultivar utilizável comercialmente). Além disso, o seguro rural, por si só, não vai resolver os problemas climáticos dos produtores rurais.” Lapola também apontou que os planos nacionais e municipais de adaptação climática mencionados por Caiado já foram atualizados recentemente. 

Ometto concorda que o plano é estruturado, mas avalia que faltam metas numéricas, prazos e detalhes sobre execução e financiamento. “A questão do licenciamento ambiental também pode ser um problema, obviamente, por conta da flexibilização. O plano, no geral, parece trazer um Estado mais rigoroso, contra a ilegalidade e com muita regularização”, opina. 

  • Edmilson Costa (PCB)

O plano defende “uma política radical de combate à destruição da natureza promovida pelo capitalismo”. Entre as propostas apresentadas estão o cumprimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos e a ampliação das Unidades de Conservação em todo o território nacional. O documento promete desenvolver ações para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, combater o desmatamento e o garimpo, além de acabar com os “lixões” a céu aberto e com a queima de combustíveis fósseis. No entanto, não são detalhadas medidas para alcançar esses objetivos. 

Costa também promete uma política de restrição ao consumo e à produção de produtos descartáveis, além da recuperação de nascentes de rios e lagos. O documento se posiciona a favor do aumento da taxação sobre danos ambientais. Órgãos de fiscalização ambiental seriam reforçados. Também menciona a demarcação de terras indígenas. 

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Ometto avalia que o texto segue uma vertente de ecologia socialista, com grande ambição ambiental. Para ele há um problema: “Não tem metas, prazos ou informações sobre a fonte de recursos.” Segundo o especialista, faltam detalhes sobre a operacionalização de muitas das propostas. 

Lapola tem uma visão semelhante: “Diz que irá acabar com o desmatamento, mas não especifica como. Aborda a implementação de alertas para desastres naturais – mas eles já existem, o que é uma falha são as estratégias de resposta a esses alertas. E muitas das ações listadas dependem de aprovação do Congresso.” 

O especialista, porém, destaca a presença de alguns temas no plano: “O plano fala do fim dos lixões, o que é louvável. E é apenas um de um total de dois candidatos que mencionam explicitamente a demarcação de territórios indígenas.” 

  • Renan Santos (Missão)

O plano de governo apresenta um panorama sobre o desperdício de energia elétrica no Brasil. Ainda aborda algumas questões presentes na Amazônia Legal (toda a Região Norte e parte do Mato Grosso e do Maranhão), como desmatamento, baixo retorno do uso de terras, isolamento econômico e dificuldade de acesso a mercados pela população. Não elabora propostas sobre esses temas.

As propostas se concentram na questão energética. Santos pretende mudar a regulação de transmissão de energia, retomar as obras na Angra 3 e explorar o hidrogênio verde. Pontua o desenvolvimento de polos industriais no Nordeste voltados ao gás natural, hidrogênio verde e petroquímica. 

O documento ainda escreve: “atenção à fusão nuclear”. Trata-se de um modelo de geração de energia há décadas em estudo, mas sem perspectivas de uso comercial por ora.

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Lapola comenta sobre a falta de propostas sobre desmatamento e mudanças climáticas, mas pontua: “O plano menciona corretamente que o País “jogou fora” energia elétrica renovável para não afetar o funcionamento de termelétricas. É o único a mencionar que a usina de Angra 3 segue parada.”

Ometto complementa: “O aspecto interessante é sobre o uso da energia renovável que já está sendo produzida. Mas não tem absolutamente nada que fale sobre uma questão ambiental mais ampla do País. É um plano bem tímido”. 

  • Hertz Dias (PSTU)

Hertz Dias é contra a privatização dos rios da Amazônia, o modelo destrutivo do agronegócio e à exploração do petróleo da Margem Equatorial. Para ele, a extrema direita e o bolsonarismo querem “destruir a floresta [Amazônica], liberar agrotóxicos e acabar com os povos originários”. Já o presidente Lula seria conivente com a situação, governando com e para o grande agronegócio e as mineradoras. 

O candidato ainda menciona brevemente planos de prevenção contra os efeitos do aquecimento global, como prevenção contra enchentes e prevenção contra deslizamentos de áreas de risco.

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Hertz é um candidato mais combativo às estruturas vigentes do País. Em contraste com as propostas anteriores, ele faz menção ao agronegócio e chega a definir a prática como “predatória”. 

Mas, para Ometto, a proposta parece morar mais no campo das ideias. “É preciso entender que a gente tem legislações ambientais que modulam a relação da expansão da agropecuária e da produção agrícola. Nesse caso, parece mais um manifesto do que uma proposta de governo.”

  • Samara Martins (UP)

A candidata advoga pela defesa e proteção do meio ambiente, pela transição de matrizes energéticas, pela proibição de agrotóxicos banidos no exterior, entre outros. 

Vale apontar que é apenas a segunda presidenciável que citou a necessidade de demarcação de terras indígenas e quilombolas em seu plano de governo – junto a Edmilson Costa (PCB). 

Samara propõe ainda o estabelecimento do controle popular sobre a Amazônia e a expulsão de todos os monopólios estrangeiros da região. Sobre as mudanças climáticas, observa que seus efeitos atingem com maior força periferias urbanas, povos indígenas e comunidades tradicionais. Para ela, a superação da crise climática exige transformações profundas e uma nova ordem econômica e social, que não esteja subordinada aos lucros da burguesia.

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Apesar de serem considerados bons objetivos, para especialistas, o plano de governo de Samara Martins (UP) falha ao não deixar claro como as propostas poderiam ser executadas. 

“Me parece um pouco anti-imperialista, o que pode ser muito bom, especialmente pela expulsão de monopólio estrangeiro da Amazônia”, observa Ometto. “Mas como fazer uma reestruturação territorial sem muita clareza?”, questiona. Como um lado positivo, o pesquisador aponta que os dados levantados pelo plano de governo são bem estruturados e aprofundados. 

O especial Ciência e Saúde nas Eleições começou antes da candidatura de Leonardo Avalanche (PRTB) ser aprovada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e portanto não entrou na análise dos especialistas consultados. No dia 30 de setembro, Avalanche desistiu de concorrer à presidência.

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