Clima tenso entre os gamers: nesta semana, um vídeo postado no X (Twitter) gerou polêmica ao mostrar um feito tecnológico aparentemente impossível.
Entre os cenários medievais detalhados das Terras Intermédias do game Elden Ring, quem aparece como personagem jogável não é o tal guerreiro “Maculado”, mas sim Steve, o bonequinho cúbico do Minecraft, que luta contra os chefões usando sua espadinha quadrada.
Indo um passo além da mudança de personagem, é como se um jogo estivesse rodando em cima do outro. Na gravação, a interface e a jogabilidade do Minecraft aparecem perfeitamente integradas aos cenários e mecânicas do Elden Ring. Veja aqui.
A demonstração deixou muita gente surpresa e confusa. Não é de hoje que entusiastas reviram o código de seus videogames favoritos para mudar a aparência de um personagem ou adicionar uma mecânica nova. Esse tipo de modificação, os “mods”, existem desde a invenção dos jogos eletrônicos, e podem servir como porta de entrada para quem quer aprender programação de novos jogos. Mas, nesse caso, a coisa é absurda demais.
Os dois jogos são, em quase todos os sentidos, diferentes, sobretudo em seus códigos. Juntar os dois softwares é o tipo de bruxaria técnica que, no passado, exigiria um trabalho enorme mesmo dos programadores mais experientes. Hoje, porém, isso já está ao alcance de muitos amadores. Basta pedir para uma inteligência artificial.
Não à toa, no decorrer da semana, a internet foi inundada por mais uma enxurrada de misturebas do gênero: Super Mario dentro de Elden Ring, Skate dentro de Call of Duty, Homem-Aranha dentro do jogo do Batman e por aí vai. O mais provável é que todos esses mods foram programados com a ajuda de grandes modelos de linguagem, como o Claude e o Chat GPT, que tem tomado conta de boa parte da programação feita hoje.
Essa prática já tem nome: “vibe coding”. O termo foi cunhado pelo pesquisador Andrej Karpathy em 2025 e descreve um tipo de programação feito por amadores com o auxílio de IA, muitas vezes de maneira um tanto desleixada, deixando-se levar pela “vibe” (daí o nome).
Recentemente, o vibe coding esteve entre as várias expressões relacionadas à IA adicionadas na versão online do Merriam-Webster, o dicionário de língua inglesa mais tradicional dos EUA, cujas raízes datam do ano 1806. Termos como “Agentic”, “Natural language processing” e “Prompt engineering” também entraram para a lista nesse último ano.
Segundo o Merriam-Webster, “‘Vibe coding’ é um termo cunhado recentemente para designar a prática de escrever código, criar páginas da web ou desenvolver aplicativos simplesmente dizendo a um programa de IA o que você quer e deixando que ele crie o produto para você. No vibe coding, o programador não precisa entender como ou por que o código funciona e, muitas vezes, terá de aceitar que haverá uma certa quantidade de bugs e falhas”.
Esse é o aspecto no qual o vibe coding é mais polêmico. Abastecidas com trilhões de linhas de código, as IAs aprenderam a ler, interpretar e escrever códigos completos e funcionais, que podem ser gerados a partir de um único prompt; mas, ainda assim, elas cometem muitos erros, e nem sempre constroem seus programas da maneira mais otimizada.
Além dos clipes curtos postados nas redes sociais, as misturas de jogos mostradas na última semana, por exemplo, dificilmente rodariam por muito tempo sem apresentar alguma falha. Poucos desses programas foram disponibilizados para o público – uma das raras exceções foi o mod que mistura Minecraft com o jogo Skyrim, e o resultado, segundo quem jogou, ainda é cheio de bugs.
No caso dos videogames, isso pode ser uma inconveniência. Porém, o vibe coding já é uma prática adotada por muitas empresas para a criação de programas que, muitas vezes, vão conter dados pessoais. Pensando em sistemas que lidam com informações sigilosas ou sensíveis, um desleixo do código pode se tornar uma vulnerabilidade grave. No ano passado, um estudo revelou que 45% dos códigos gerados por inteligência artificial falham em testes de segurança. No caso de códigos em Java, especificamente, o número salta para 72%.
