No domingo, dia 25 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disputam o segundo turno das eleições presidenciais de 2026. A votação ocorre das 8h até às 17h do horário de Brasília.
Uma forma de avaliar as propostas de cada candidato é pelo programa de governo. Esse documento oficial é enviado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e traz de forma detalhada as diretrizes do candidato em relação a diversos temas, como saúde, educação, tecnologia e, é claro, meio ambiente, questão que deve ser muito debatida nos próximos quatro anos.
O Brasil e o mundo vivem em uma crise ambiental De 2015 a 2025, a humanidade registrou os 11 anos mais quentes da História desde que a temperatura do planeta começou a ser medida, na década de 1850. Calor recorde, secas mais longas e desastres naturais tornam-se cada vez mais frequentes, e 77% dos brasileiros já foram afetados, em alguma medida, por eventos climáticos extremos.
No Brasil, a expansão da agropecuária e do desmatamento têm alterado a longo prazo a temperatura e o regime de chuvas do País com o lançamento de gases de efeito estufa na atmosfera. Os impactos envolvem a vegetação, segurança hídrica, agricultura e saúde das pessoas em todo o País, além de intensificar eventos climáticos extremos como secas e queimadas.
Discutir mudanças climáticas e Amazônia é discutir, também, a vida de milhões de brasileiros.
Confira as propostas de Flávio Bolsonaro e Lula sobre meio ambiente:
As informações desta reportagem fazem parte do projeto Ciência e Saúde nas Eleições, uma iniciativa do Instituto Questão de Ciência (IQC) em parceria com as revistas VEJA SAÚDE e Superinteressante para analisar as propostas dos candidatos à presidência nas áreas de ciência, tecnologia e saúde. Confira aqui as reportagens da Super e aqui as de VEJA SAÚDE.
Selecionamos trechos dos planos de governo dos presidenciáveis nas eleições de 2026 que englobam o tema de Meio Ambiente e Amazônia e pedimos que especialistas avaliassem as propostas.
Ouvimos David Montenegro Lapola, pesquisador e coordenador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (CEPAGRI) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e Jean Ometto, pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil (INPE) e coordenador do Centro de Ciências do Sistema da Terra (CCST-INPE).
Os pesquisadores opinaram sobre as propostas às cegas, sem a identificação prévia dos candidatos autores de cada plano, para evitar vieses.
- Lula (PT)
O plano menciona dados e projetos do governo anterior e apresenta medidas de ampliação de programas já existentes, como o Plano Clima, Fundo Clima, NDC Brasileira. Para Jean Ometto, o documento é um balanço da gestão anterior, sem propostas realmente novas: “As propostas, a abordagem e a ambição ambiental seguem a lógica da gestão atual. O plano está voltado a projetos que já estão em vigor”, explica.
Um dos principais temas é o investimento em biocombustíveis e fontes de energia renováveis, visando promover a transição energética do País. Ao mesmo tempo, o plano também menciona a exploração de combustíveis fósseis e do gás natural para garantir a segurança energética (ou seja, a capacidade do Brasil fornecer sua própria energia à população). Este seria um meio de financiar a transição energética. A Petrobras, por sua vez, teria parte da atuação direcionada aos biocombustíveis.
A proposta não é bem vista por Ometto. “Há uma tensão entre as metas de contenção das mudanças climáticas e a expansão da exploração de petróleo e gás natural como um mecanismo para financiar a transição energética. Isso é, no meu entendimento, falacioso”, afirma. Ele também aponta que os investimentos em exploração de petróleo e gás demoram muito para gerar retorno financeiro. “Com o crescimento de energia renovável, o preço do petróleo pode ficar até menos interessante no futuro”.
Quando o assunto é a Amazônia, Lula propõe o uso do bioma para o desenvolvimento de insumos farmacêuticos ativos (IFAs), que são matérias-primas utilizadas em medicamentos. A Amazônia é apresentada como eixo de desenvolvimento nacional, útil para atividades industriais, farmacêuticas, alimentares e até energéticas.
As mudanças climáticas também são reconhecidas pelo plano, que propõe um programa nacional de resiliência climática no campo. Ele atuaria na irrigação, conservação dos solos, no monitoramento meteorológico, entre outras funções. O documento ainda prevê o fortalecimento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para modernizar a agricultura e a pecuária.
O plano detalha medidas de adaptação das cidades aos eventos climáticos extremos. A proposta é investir em soluções para antecipar esses eventos e socorrer a população rapidamente. Planeja-se investir R$25 bilhões em obras para conter deslizamentos de terra e enchentes.
Lula também aborda a necessidade de diminuir o desmatamento e reforça o compromisso de eliminar o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030.
Sobre territórios indígenas, o plano é breve: “Menciona que irá avançar na destinação de terras públicas para unidades de conservação e terras indígenas, mas não usa o termo demarcação”, analisa David Lapola, coordenador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (CEPAGRI) da Unicamp.
O especialista também faz uma ressalva sobre a menção do plano de governo ao Roteiro Baku–Belém. Estabelecido entre a COP 29 e a COP 30, o roteiro busca alcançar US$1,3 trilhão em financiamento climático por ano até 2035. Teoricamente, o montante seria utilizado por países em desenvolvimento. “A maior parte desse dinheiro segue não investido e o pouco que foi desembolsado pelos países é na forma de empréstimo e não fundo perdido como deveria ser”, conclui.
Confira o plano de governo completo de Lula aqui.
- Flávio Bolsonaro (PL)
O plano promete concluir, iniciar e executar uma série de obras públicas, como o Ramal do Apodi, o Ramal do Salgado, a Adutora do Seridó, o Canal do Xingó, entre outras. Também defende o investimento em biocombustíveis e biogás e assume o compromisso de zerar o desmatamento ilegal até 2029. Ainda afirma que consolidará o mercado regulado de carbono no Brasil.
O principal lema do plano de governo de Flávio é “Preservar e produzir ao mesmo tempo”. O meio ambiente é conceituado como um ativo verde do Brasil que deve, ao mesmo tempo, ser preservado e utilizado para a produção. “O meio ambiente como um ativo estratégico, não como um obstáculo ao desenvolvimento”, diz um trecho do documento.
Sobre crimes ambientais, como grilagem e desmatamento ilegal, o documento propõe o uso ferramentas com inteligência artificial e imagens de satélite para fiscalização. Em diversos trechos, reitera a distinção entre criminosos ambientais e produtores rurais que vivem na floresta e atuam conforme a lei, chamados de “parceiros”. Também defende a criação de incentivos econômicos (Pagamento por Serviços Ambientais), para remunerar os produtores e proprietários rurais que contribuam para a conservação da vegetação e dos recursos hídricos de seus territórios.
O plano defende a bioeconomia, propondo o desenvolvimento de fármacos e cosméticos baseados na natureza ao lado desses “moradores da floresta” e extrativistas. Afirma que povos indígenas e quilombolas terão autonomia sobre as atividades produzidas em seus territórios.
Para Lapola, isso revela uma contradição. Segundo ele, ao mesmo tempo que Flávio se compromete a zerar o desmatamento ilegal, o plano afirma que não irá tratar as populações da floresta como criminosas. “Isso pode ensejar insegurança jurídica, pois o conceito de morador da floresta pode ser muito relativizado. Também é paradoxal que o plano não menciona mudanças climáticas, mas cita que atuará na regulação do mercado de carbono”, explica.
Ometto avalia que o foco principal do plano está na produção. “Não há menção sobre questões de demarcação de terras indígenas ou unidades de conservação, por exemplo. A Amazônia ocupa uma posição estratégica, mas as propostas estão relacionadas ao manejo e à produção”, afirma
Por fim, Flávio propõe a eliminação de superposições entre Ibama, Funai e ICMBio (ou seja, situações em que o mesmo território é protegido por mais de uma instituição). Também prevê medidas para aumentar a transparência de ONGs que atuam na região amazônica. Sobre a fiscalização de ONGs, Lapola aponta o tema como delicado, que já foi motivo de polêmicas em gestões passadas.
Confira o plano de governo completo de Flávio Bolsonaro aqui.
