Lula e Flávio Bolsonaro avançam para o segundo turno com propostas bastante distintas para Pesquisa, Universidade e Pós-graduação no Brasil. A Superinteressante analisou os planos de governo dos dois candidatos e, com a ajuda de uma IA, selecionou os trechos que abordam tópicos relacionados a esse tema.
Para comentar os planos de governo, convidamos José Eduardo Krieger, professor titular da Faculdade de Medicina da USP, ex-pró-reitor de Pesquisa da USP e ex-conselheiro do Instituto de Estudos Avançados da universidade; e Victor Hugo de Oliveira Colmanetti, mestrando do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas, mantido por Unesp, Unicamp e PUC-SP, e pesquisador do Observatório de Regionalismo (ODR).
Para a análise dos especialistas, os planos de governo não foram identificados. Dessa forma, os pesquisadores fizeram comentários sem saber a quem pertencia cada plano de governo.
De forma geral, Krieger ressalta que Lula apresenta articulações mais desenvolvidas entre instrumentos, instituições e desenvolvimento, embora precisem de maior priorização. Já Flávio Bolsonaro enfatiza a conexão produtiva, com risco de reduzir excessivamente a missão universitária ao retorno econômico imediato.
Colmanetti aponta que Lula aposta na continuidade de mecanismos, sem apresentar muitas inovações. Já Bolsonaro usa instrumentos estatais a serviço de uma orientação pró-mercado, na avaliação do especialista.
Uma discussão mais detalhada sobre os planos de governo dos presidenciáveis que não avançaram para o segundo turno pode ser encontrada na reportagem: Eleições 2026: o que os presidenciáveis propõem para Pesquisa, Universidade e Pós-graduação no Brasil?. A iniciativa integra o projeto Ciência e Saúde nas Eleições, uma parceria entre o Instituto Questão de Ciência (IQC), a Superinteressante e VEJA SAÚDE.
No texto abaixo, entenda as diferenças entre as propostas de Flávio Bolsonaro e Lula para Pesquisa e Universidade em cinco pontos.
1. Governança e Estrutura Institucional
- Bolsonaro: Propõe transferir a governança do ensino superior para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), colocando a ciência e o ensino superior “sob o mesmo teto”.
- Lula: Mantém a governança sob a coordenação do Ministério da Educação (MEC) e aposta em um novo ciclo de expansão e interiorização da educação superior pública e da pós-graduação. O plano inclui a criação e consolidação de instituições especializadas, como a Universidade Indígena, a Universidade do Esporte e uma unidade do ITA no Ceará
Para Colmanetti, a proposta de Bolsonaro parte da premissa de que universidade é sinônimo de pesquisa. A transferência poderia gerar dificuldades operacionais, devido a migração de estruturas como Capes, Enade e Fies para um ministério com orçamento menor.
Já Krieger diz que transferir o ensino superior para o MCTI pode facilitar algumas articulações, mas não demonstra, por si, melhoria de coordenação. A mudança também poderia enfraquecer as conexões com a formação de professores gerida pelo MEC.
Em relação ao plano de Lula, Krieger diz que a criação de novas instituições necessita de maiores justificativas, já que a proposta exigiria custeio permanentes. “Por que criar uma instituição, em vez de fortalecer redes existentes? Preferências e conteúdo local também precisam demonstrar aprendizagem tecnológica, qualidade e competitividade”.
2. Finalidade e Prioridades da Pesquisa Científica
- Bolsonaro: Defende que a CAPES e o CNPq passem a priorizar explicitamente o impacto produtivo, a inovação e a transferência de tecnologia, direcionando as pesquisas para gerar “produto, emprego e renda, em vez de ficar na estante”. Estimula cursos de pós-graduação lato sensu voltados ao mercado e remunerados pelas empresas.
- Lula: Articula a pesquisa científica a missões estratégicas de desenvolvimento nacional e soberania, combinando ciência básica, pós-graduação e projetos de longo prazo. Destaca áreas prioritárias como a transição ecológica e descarbonização, e o Complexo Econômico-Industrial da Saúde, focado no desenvolvimento de insumos farmacêuticos ativos a partir da biodiversidade da Amazônia e sequenciamento genômico para o SUS.
Em relação à proposta de Bolsonaro, tanto Colmanetti quanto Krieger ressaltam o risco de subordinação da universidade à lógica produtiva imediata, com prejuízo à pesquisa básica e às áreas com valor social não mercadológico, como as humanidades. Além disso, a formação orientada pelo emprego atual pode perder capacidade de preparar para transformações futuras.
Sobre Lula, Krieger aponta o desenvolvimento de insumos farmacêuticos e genômica para o SUS como pontos positivos. Para Colmanetti, a relação com o setor produtivo, no Complexo Econômico-Industrial da Saúde e na política industrial, também é positiva, inclusive quando envolve capital privado.
3. Modelo de Inovação e Papel do Estado
- Bolsonaro: Adota uma orientação pró-mercado e liberal. O Estado atua primordialmente como comprador de tecnologia e indutor via GovTech e compras públicas, promovendo a difusão prática de ferramentas de inteligência artificial para micro, pequenas e médias empresas. Propõe uma legislação com foco na desregulamentação e liberdade para criar sem entraves regulatórios que afugentem investimentos.
- Lula: Segue uma orientação desenvolvimentista com o Estado coordenador da articulação entre universidades, institutos públicos e setor privado. Utiliza o poder de compra estatal, o crédito público e instrumentos como as Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs), condicionando benefícios a exigências de conteúdo local e agregação de valor nacional para desenvolver a indústria local.
Sobre Bolsonaro, Colmanetti pontua que a promessa de uma legislação “sem entraves” sinaliza o afrouxamento da regulação, sem considerar os riscos envolvidos na tecnologia. Além disso, ele critica a estratégia de inteligência artificial limitada a empresas, enquanto a pesquisa aparece como meta genérica e sem instrumentos.
Já Krieger vê a inclusão e difusão de IA como pontos positivos. “Essa atenção à adoção de tecnologias é importante para gerar resultados mais próximos”, diz ele.
Sobre Lula, Krieger diz que “A combinação de financiamento, compras públicas e cooperação institucional pode conectar pesquisa a necessidades de grande escala”
(Para saber mais sobre as propostas específicas de IA dos dois candidatos, leia este texto)
4. Financiamento e Infraestrutura de Fomento
- Bolsonaro: Enfatiza o financiamento estudantil contingente à renda (o aluno paga após formado conforme seu salário), apoio a incubadoras, startups e parques tecnológicos para que as empresas financiem a formação de profissionais alinhados ao mercado.
- Lula: Prioriza a recomposição orçamentária das universidades públicas, a restauração e reajuste dos valores das bolsas de pesquisa e o uso estratégico do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) sem contingenciamentos.
Sobre a proposta de Bolsonaro, Krieger diz que o financiamento estudantil contingente à renda procura reduzir o risco suportado pelo estudante. Já Colmanetti lembra que a Lei 13.530/2017 já previa no Fies o pagamento vinculado à renda, com desconto em folha limitado a 20% da remuneração. No entanto, a modalidade não chegou a ser implementada pela Caixa, e a cobrança seguiu pelo pagamento mínimo. O problema, pontua ele, é a execução – o que não é abordado no plano.
5. Fuga de Cérebros e Carreira Científica
- Bolsonaro: Trata a retenção de jovens cientistas por meio da inserção no mercado de trabalho qualificado, articulada a ecossistemas de startups e empresas de base tecnológica, sem detalhar estruturas de carreira acadêmica ou bolsas.
- Lula: Apresenta uma iniciativa formal de repatriação e fixação, o Programa Conhecimento Brasil, que oferece bolsas para atração e fixação de pesquisadores.
Em relação à proposta de Lula, Colmanetti ressalta que o Programa Conhecimento Brasil só possui 599 pesquisadores aprovados, o que é uma escala modesta diante do problema de evasão de doutores no Brasil e não resolve problemas estruturais de vínculos de bolsistas.
Sobre Bolsonaro, Colmanetti diz que o problema de fuga de cérebros é reduzido à oferta de “trabalho qualificado” no mercado, sem qualquer menção à carreira do pesquisador.
