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O que Lula e Flávio Bolsonaro propõem para os minerais estratégicos e terras raras?

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O mundo vive uma corrida frenética para explorar recursos valiosos, e parte desse tesouro está enterrado no Brasil. São os chamados “minerais estratégicos” ou “críticos”, recursos de disponibilidade limitada que são essenciais para várias indústrias. 

Não há uma única definição para o termo, mas o grupo costuma incluir materiais que são essenciais para tecnologias avançadas, para a transição energética e para a economia digital como um todo. Elementos como níquel, cobalto, lítio e manganês, por exemplo, são cruciais para a fabricação de baterias.

Já “terras raras” é um apelido para um subgrupo desses elementos cruciais. Trata-se de 17 metais de nomes difíceis – como praseodímio, neodímio e térbio – cuja principal aplicação é na fabricação de superímãs resistentes à desmagnetização. Esses ímãs, por sua vez, são usados em drones, turbinas eólicas, carros elétricos e outras tecnologias. 

Apesar do nome, esses elementos nem são tão raros assim – o cério, por exemplo, é o 25º elemento mais comum da crosta terrestre, na frente até do cobre –, mas são encontrados misturados (uns com os outros e também com impurezas) e em baixas concentrações. A separação deles é o grande desafio da exploração. (Leia mais nesta reportagem da Super.)

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O que são as “terras raras”?


Nos últimos anos, a exploração dos minerais críticos e das terras raras se tornou uma espécie de campo de batalha geopolítico. Grandes potências, principalmente EUA e China, querem assegurar controle para suas respectivas indústrias de tecnologia, defesa e energia. Para isso, porém, precisam se voltar para outros países, costurando acordos de exploração nos locais que detêm grandes reservas minerais. É nesse contexto que o Brasil se destaca como um personagem importante.

Nosso país, por exemplo, é o maior produtor de nióbio, um elemento utilizado (em pequenas quantidades) em foguetes, carros, pontes, aviões e basicamente qualquer coisa que seja tecnológica ou feita de aço. 98% das reservas conhecidas dele estão por aqui.

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No quesito terras raras, temos a segunda maior reserva dos elementos, com cerca de um quinto do total mundial, atrás apenas da China (que detém 48%). A exploração, no entanto, é minúscula: atualmente, só uma empresa extrai comercialmente os minerais no Brasil: a Serra Verde, que opera em Goiás. Em setembro, ela foi comprada pela mineradora americana USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões.

Além disso, o Brasil não separa as terras raras nem produz superímãs em grande escala – essa cadeia é dominada, sobretudo, pela China, que concentra mais de 90% do refino. O mercado atual se resume à venda de matéria-prima bruta para fora, sem produção de produtos de alto valor agregado ou desenvolvimento de tecnologias, e mesmo isso é limitado.

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Justamente por isso, a exploração dos minerais estratégicos é elencada como uma grande oportunidade política para o Brasil, tanto para impulsionar a economia e desenvolver a ciência e a indústria nacional quanto para defender a soberania do país e reforçar sua importância no cenário geopolítico internacional.

Não à toa, o assunto está sempre pipocando no noticiário e foi adotado em discursos políticos diversos. Mas o que os candidatos à presidência de 2026 de fato propõem para esse tema? 

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Antes do primeiro turno, a Superinteressante analisou os planos de governo de 12 presidenciáveis e, com a ajuda de uma IA, selecionou os trechos que abordam tópicos relacionados ao tema “minerais estratégicos”. Depois, para avaliar os planos de governo, a Super ouviu três especialistas: 

Nilson Francisquini Botelho, professor titular do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília; Giorgio Romano Schutte, professor de Relações Internacionais e Economia da Universidade Federal do ABC (UFABC); e Edna Aparecida da Silva, pós-doutoranda no Instituto de Relações Internacionais IREL/UnB e pesquisadora do GT Geopolítica e Economia Política Internacional de Minerais Críticos e Estratégicos INCT-INEU/OPEB.

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Os especialistas receberam as propostas dos planos de governo sem a identificação dos presidenciáveis. O documento dividiu os textos como “Candidato 1”, “Candidato 2” e assim por diante. Dessa forma, os entrevistados não sabiam a quem pertencia cada proposta.

A iniciativa rendeu uma reportagem contendo as propostas dos 12 candidatos, que você pode ler aqui. Agora, trazemos as análises especificamente para os candidatos do segundo turno.

Essa reportagem faz parte do projeto Ciência nas Eleições, uma iniciativa do Instituto Questão de Ciência (IQC) em parceria com as revistas VEJA SAÚDE e Superinteressante para analisar as propostas dos candidatos à presidência nas áreas de ciência, tecnologia e saúde. Confira aqui as reportagens da Superinteressante e aqui as de VEJA SAÚDE.

O que os dois candidatos têm em comum

Os programas de Lula e Flávio convergem em um objetivo: propõem a construção de uma cadeia produtiva vertical para os minerais estratégicos e para as terras raras, em que as várias etapas da produção são feitas no Brasil, e não apenas a extração e a venda de matéria-prima. Ou seja: que o país consiga, por exemplo, separar e refinar as terras raras por aqui e produzir itens como chips e superímãs, em vez de apenas vendê-las para países ricos e depois comprar deles os produtos tecnológicos finais.

Apesar disso, ambos são igualmente meio vagos em relação a como fazer isso. Até certo ponto, isso faz algum sentido: ser um exportador de matéria-prima e importador de tecnologias é uma sina que o Brasil carrega há bastante tempo, e não há um passe de mágica que reverta esse modelo rapidamente.

Para as terras raras, por exemplo, é ainda mais difícil: hoje, o mercado de refino e separação delas é dominado, basicamente, pela China, que construiu uma infraestrutura ao longo de décadas. Mesmo países ricos, como os EUA, têm dificuldade de bater de frente com essa hegemonia.

O que Lula diz

O petista fala em desenvolver uma “política específica para minerais críticos e terras raras”, para organizar cadeias produtivas, diferenciar usos tecnológicos e evitar a simples exportação de matérias-primas estratégicas. Cita o mapeamento geológico e reforça a responsabilidade ambiental.

Sobre a corrida geopolítica por esses recursos, o atual presidente afirma que as políticas de comércio exterior deverão ser alinhadas com as políticas industriais e de inovação do Brasil, mas não detalha como. Também elenca a Amazônia e o Nordeste como regiões centrais para o desenvolvimento sustentável.

É o único a citar a exploração do urânio (que é considerado um mineral crítico) e a energia nuclear: “Avançaremos na autonomia do ciclo do combustível nuclear e aproveitaremos de forma responsável as reservas nacionais de urânio, sempre condicionado à viabilidade técnica, econômica, ambiental e social.”

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Para Botelho, as propostas são genéricas, sem detalhar as ações que serão tomadas para atingir os objetivos. Abordar a exploração do urânio é um diferencial, embora o plano não especifique “qual será o papel do Estado na política nuclear”.

Nessa mesma linha, Schutte diz que a citação à energia nuclear é “positiva”, mas o candidato omite uma questão importante em relação ao tema nuclear e não se posiciona sobre “a prioridade a ser dada (ou não) à conclusão de Angra 3”, cuja construção começou na década de 1980 e não terminou até hoje. 

De modo geral, os entrevistados reforçam que o plano tem substância, mas é pouco ousado e faltam explicações. Para Silva, a proposta define uma “orientação industrial clara”, que visa verticalizar e interiorizar a produção, mas tem pouco “detalhamento sobre os mecanismos de financiamento, propriedade e controle dos empreendimentos e sobre como assegurar a internalização das etapas de maior valor”.

O que Flávio Bolsonaro diz

O candidato também cita o desenvolvimento de uma cadeia verticalizada no Brasil e a necessidade de agregar valor à produção nacional. Como diferencial, diz que o Estado será “regulador e coordenador”, e não “empresário”, citando seis eixos: “marco regulatório claro e estável; licenciamento ágil e técnico; atração de capital e tecnologia; verticalização com incentivos de mercado; governança; e transparência.”

Para isso, o candidato diz que vai atrair investimentos e tecnologias estrangeiros, “com todos os países que queiram a cooperação do Brasil, sem preconceitos ou ranços ideológicos”. “Vamos trabalhar para atrair o capital estrangeiro e a tecnologia que já existem no mundo, aplicando aqui o que outros países já dominam e transferindo esse conhecimento ao Brasil”, diz.

Também propõe acelerar o licenciamento para a exploração.

Especialistas comentam

Para Botelho, a proposta é genérica, apesar de citar a necessidade de verticalização. Um ponto positivo é a disponibilidade de dialogar com todos os países.

Schutte, por sua vez, avalia que o plano ignora completamente o cenário geopolítico e os interesses de outros países na questão, o que torna a proposta “um pouco ingênua ou contraditória”. O plano coloca o Estado como regulador, mas não cita nominalmente quem vai empreender de fato, dando a entender que isso ficará por conta de investimentos estrangeiros. “Como garantir e organizar para que os interesses das potências internacionais se alinhem aos objetivos de desenvolvimento industrial e tecnológico do país?”, diz Schutte.

Silva destaca a necessidade de acelerar os processos de autorização e licenciamento de exploração, mas sem controle dos impactos ambientais, o que é um risco. Schutte concorda e é mais enfático, classificando a ausência da questão ambiental como “lamentável”.

 

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