Apesar de domesticados, os gatos continuam exímios caçadores: não é difícil observá-los indo atrás de ratos e passarinhos nas proximidades de seu lar. Inclusive, os gatos são considerados uma das maiores ameaças à fauna de pássaros em todo o mundo. Ainda assim, nem sempre os bichanos comem suas presas após matá-las. Por que será que isso acontece?
Para entender esse fenômeno, é preciso saber que, na cabeça dos gatos, o instinto predatório e a alimentação não são comportamentos conectados. Uma revisão científica de 2021 destaca justamente essa separação entre a motivação para caçar e a necessidade de obter alimento. Para os autores, os gatos que têm tutores e recebem comida em casa não precisam mais caçar, mas ainda retêm esse instinto como uma “influência herdada de seus ancestrais selvagens”.
Além disso, o instinto de caça não depende inteiramente da fome. A caça é uma sequência de comportamentos (localizar, perseguir, agarrar e morder) que não precisa terminar com a ingestão da presa. Um estudo de 1976 fez um teste para comprovar isso: deixou seis gatos sem nutrição por 48 horas e, em seguida, ofereceu a eles suas comidas favoritas. Enquanto eles comiam, os cientistas soltaram um rato no ambiente. Todos os gatos, exceto um, pararam a refeição para caçar o rato.
Em seguida, os gatos levaram o rato morto para junto da comida. Porém a maioria preferiu continuar comendo o alimento oferecido em vez do rato caçado. De acordo com os autores, esses dados sugerem duas coisas: primeiro, que a tendência predatória é mais forte que a necessidade de consumo de alimento. E, segundo, que o ato de comer não precisa ser a etapa final da predação (embora a fome possa potencializar esse ato).
Estudos sugerem que os gatos domésticos se especializam em suas presas favoritas e podem procurá-las mesmo quando há oferta maior de outro tipo de presa. Por exemplo: um gato que prefere predar ratos pode ignorar os passarinhos ao seu redor. Ou seja, o ato de caçar não está necessariamente conectado a uma busca por comida.
E ainda tem mais um aspecto que precisa ser levado em conta: a caça também é um ato de brincadeira. Podemos ver isso em casa: o gato persegue brinquedos, dá botes, agarra e morde objetos, mesmo que eles não sejam presas reais (inclusive, há evidências de que a brincadeira com objetos pode ajudar a satisfazer parte da motivação predatória). Quando um gato captura uma presa real e fica soltando-a, perseguindo-a novamente ou manipulando-a, pode haver um componente lúdico envolvido. Embora os pesquisadores concordem que a brincadeira e a caça sejam comportamentos distintos, o que se observa é que eles se sobrepõem em muitos aspectos.
Em resumo, por mais que pareça contraditório caçar um animal se não for para comê-lo, é preciso aceitar que, para os gatos, isso faz sentido. O ato de caçar está satisfazendo outras vontades e instintos, e não necessariamente a busca por alimento.
