As plantas não são completamente inertes: elas crescem, e muitas ajustam a direção desse crescimento de acordo com certos estímulos – um fenômeno chamado de tropismo.
Algumas apontam seus brotos na direção do Sol (heliotropismo), outras se guiam de acordo ou contra a força da gravidade (gravitropismo), e boa parte tende a direcionar suas raízes para onde, no solo, existe mais água (hidrotropismo). Da mesma forma, as plantas também podem usar esse tipo de movimento limitado para se esquivarem de substâncias prejudiciais.
Em um estudo recente publicado na revista Science, pesquisadores chineses e austríacos identificaram um novo tipo de tropismo, no qual plantas dobram suas raízes para se afastar de organismos mortos ou apodrecidos. Nomeado “saprotropismo” (com o prefixo sapro, derivado da palavra grega para “podre” ou “estragado”), esse movimento permite com que as plantas não absorvam as toxinas expelidas pelos micróbios da decomposição, em regiões contaminadas do solo.
“Os animais evitam instintivamente alimentos estragados, porque eles frequentemente abrigam microrganismos nocivos”, disse, em nota, o biólogo Yuzhou Zhang, co-autor e idealizador do estudo. “Nós nos perguntamos se as plantas, embora não possam se locomover, poderiam ter desenvolvido uma estratégia comparável no subsolo.”
A pesquisa surgiu de um experimento mal-sucedido feito por Zhang em um laboratório da Áustria. Tentando entender a resposta das plantas à força da gravidade, o biólogo notou que uma das suas placas de ágar (uma substância derivada de algas marinhas) havia sido contaminada por micróbios do ar.
Acabou sendo um acaso feliz: diante da contaminação, o biólogo pode notar que todas as raízes de suas amostras se curvavam para longe das regiões contaminadas. A observação motivou uma investigação mais aprofundada.
No estudo, os autores plantaram brotos da espécie Arabidopsis thaliana em recipientes salpicados de diferentes materiais orgânicos em decomposição, como pedaços de maçã, folhas ou serragem de madeira. Como esperado, as raízes das plantas se curvaram para desviar das “zonas de decomposição”, onde o material podre contaminava o solo ao redor. Curiosamente, as raízes não regiam da mesma forma quando o material orgânico era de origem animal, como pedaços de carne de galinha.
Os pesquisadores observaram o mesmo efeito em outras plantas, como canola, tomate e trigo. Essa reação, portanto, pode ser algo comum no reino vegetal.
Alguns fatores distinguem esse fenômeno dos demais de seu tipo. Antes, a maior parte dos tropismos era relacionada a estímulos não biológicos (abióticos) – água, luz, gravidade, etc. No caso do saprotropismo, porém, o que influencia o crescimento da planta são os microorganismos vivos do solo.
Da mesma forma, o mecanismo por trás dessa reação também é distinto dos demais tropismos. No fototropismo, por exemplo, a planta orienta seu movimento em direção a uma fonte de luz redistribuindo a auxina, um hormônio do crescimento, pelas suas raízes e caules.
No saprotropismo, por outro lado, quem direciona o é o ácido abscísico (ABA), um hormônio vegetal que reage ao pH do solo. Quem dá o sinal são os fungos: quando esse microorganismos quebram e decompõem os tecidos vegetais mortos, eles liberam, no solo, metabólitos ácidos (substâncias como ácidos fenólicos e orgânicos), criando regiões de maior acidez na terra.
As plantas, por sua vez, detectam esse aumento de acidez, e distribuem o ácido abscísico para o lado das raízes que está mais próximo ao material podre. Essa concentração em uma das faces força as raízes a crescerem na direção oposta, efetivamente desviando da região contaminada.
Como mostraram os experimentos, quando a matéria orgânica termina sua decomposição, e enfim vira parte do solo, a planta retoma seu crescimento normal. “Quando o material vegetal já havia se decomposto quase por completo, o sinal ácido de alerta desapareceu, e as raízes deixaram de se curvar para longe”, disse Zhang.
