Em primeiro lugar, é preciso entender que “do nada” é uma descrição que só se aplica à superfície do problema. Um gato que parece calmo e, de repente, começa a morder ou arranhar quase sempre tem um motivo bem definido para esse comportamento. A questão é que os humanos nem sempre conseguem enxergar esse motivo.
Em geral, a agressividade repentina surge por causa de um desconforto que se torna excessivo. E ela serve como uma forma de comunicação: seu gato está dizendo, por meio desses atos, que tem algo de errado.
A explicação mais comum: dor
Gatos costumam esconder ou tolerar desconfortos. Quando a agressividade acontece, pode ser que ele já esteja sentindo dor há dias ou semanas e a situação agora tenha se agravado. Por isso, se ele costumava ser calmo, mas agora está mordendo e chiando quando você se aproxima, essa é a primeira explicação possível a ser investigada.
Artrite, doenças dentárias, traumas e infecções são algumas das condições comuns que podem provocar dor em gatos, especialmente os mais velhos. Algumas situações esporádicas, como alguém pisar no gato ou puxar sua cauda, também são comuns, sobretudo quando há crianças na casa. Isso pode levar a um comportamento agressivo quando o gato é tocado ou acredita que será tocado em uma área dolorida.
Outras explicações
Além da dor, há outras possíveis motivações que também são recorrentes.
- Competitividade / Estabelecimento de dominância: Em casas com mais de um pet, costuma existir um “ranking” de dominância com um macho adulto no topo, especialmente se ele não for castrado. Os demais ocupam posições paralelas na hierarquia, de modo que situações de competitividade, como quem come primeiro ou quem fica com o melhor lugar de dormir, precisam ser decididas com imposição física. Para nós, humanos, essas situações podem parecer como se um gato estivesse “fazendo bullying” com o outro. Isso reforça a importância de criar espaços individuais para cada gato na casa.
- Agressividade redirecionada: É um dos casos mais comuns e pode estar relacionado a diversos fatores difíceis de detectar, como cheiros, barulhos, mudanças ambientais (exemplo: uma porta fechada) e animais próximos à casa. O gato fica superestimulado e, como não tem acesso à origem do problema, redireciona sua agressividade para uma pessoa que está perto. A pior parte é que o gato pode associar sua vítima ao fator que está lhe estressando, mesmo que a pessoa não tenha nada a ver com isso. Dessa forma, toda vez que essa pessoa se aproximar, o gato poderá se lembrar do incidente e se tornar agressivo novamente. Em alguns casos extremos, o gato pode precisar de remédios para controlar essa agressividade, como ansiolíticos.
- Condições neurológicas: Tumores cerebrais, declínio cognitivo, convulsões e perdas sensoriais em gatos idosos são causas comuns para uma mudança para um comportamento mais agressivo.
- Mudanças hormonais: Em fêmeas, especialmente as não castradas, algumas mudanças ligadas aos hormônios podem causar irritabilidade e agressividade, como o ciclo de cio, cistos ovarianos e mudanças no sistema reprodutivo.
- Agressividade ao receber carinho: Aqui, as causas podem variar. O movimento repetitivo pode cansar o gato, por exemplo, ou então o excesso de contato pode se tornar insuportável. Varia muito de um animal para o outro.
- Medo: Pode não parecer, mas os gatos preferem evitar confronto a não ser que seja necessário. Ao perceber uma ameaça da qual ele pensa que não pode escapar de imediato, o animal pode assumir uma postura agressiva, com pelos eriçados, olhar fixo, orelhas eretas, cauda fixa e miados em tom de imposição. Às vezes, os tutores conseguem entender qual é essa ameaça, às vezes não. Em geral, o melhor é se afastar do gato e dar espaço a ele, em vez de tentar acalmá-lo. No longo prazo, o ideal é identificar o que causa esse medo e tentar impedir que essa situação seja frequente.
- Territorialismo: Acontece quando o gato sente que seu espaço está sendo invadido. Em um ambiente doméstico, o gatilho pode ser um novo pet, um novo habitante ou um novo bebê — a agressão pode ser dirigida tanto ao invasor quanto aos moradores habituais. Mas também pode ser algo externo à casa, como um novo gato na vizinhança, o que pode levar os tutores a achar que agressividade é “do nada”.
- Brincadeira: A agressividade induzida por brincadeira é comum em filhotes e gatos jovens que ainda não têm noção dos limites do que podem fazer. Os pesquisadores acreditam que essa é uma forma de desenvolver a coordenação e os músculos e aprender moderação. À medida que os filhotes crescem, a agressividade nas brincadeiras aumenta e se torna mais bruta, levando, por fim, à dispersão da ninhada. Em ambientes domésticos, onde não há outros filhotes para brincar, os tutores frequentemente se tornam alvos desse tipo de agressão — como quando um gato se aproxima furtivamente, morde e sai correndo, ou faz uma emboscada para tornozelos que passam por perto.
A agressividade é normal se for passageira. Porém, se ela estiver acompanhada de outros sintomas (como mudança de apetite e perda de peso), se estiver ficando cada vez mais frequente e grave, ou se o gato apresenta sinais de dor em alguma parte do corpo, o ideal é consultar o veterinário. Conforme dissemos, dificilmente o gato muda de comportamento “do nada”: existe um motivo, ainda que não esteja claro aos olhos dos tutores.
