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Brasileiros desconfiam do conteúdo nas redes sociais, mas confiam nas plataformas

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Embora o tema da regulação das plataformas digitais tenha chegado ao centro do debate público, a percepção dos brasileiros conectados sobre a segurança desses ambientes segue praticamente inalterada: quem confia tende a continuar confiando, e quem desconfia tende a manter o ceticismo.

No caso das redes sociais, essa confiança passa por uma distinção especialmente relevante. Mais gente confia no serviço oferecido pelas redes, em si, do que nas informações que circulam dentro dessas plataformas.

Esses são alguns dos apontamentos apresentados pela nova edição do Índice Reglab de Confiança e Segurança na Economia Digital, um indicador nacional que mede a percepção pública sobre os ambientes digitais. Desde o começo do ano, o estudo tem acompanhado as oscilações nos níveis de confiança e conhecimento sobre as plataformas, dentro de diferentes camadas da sociedade brasileira.

Os resultados da rodada de pesquisas mais recente, relativos ao terceiro trimestre de 2026, revelam um cenário de estabilidade. Em comparação com a rodada anterior, cerca de 77% daqueles que menos confiavam nas plataformas continuam céticos, enquanto 70% dos que mais confiavam ainda mantêm a mesma confiança.

Nesse sentido, eventos recentes de relevância nacional como a implementação do ECA Digital ou o uso pesado de redes sociais nas campanhas eleitorais parecem ter feito pouco para impactar a percepção da maior parte dos brasileiros sobre as plataformas.

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“A confiança no ambiente digital se parece mais com uma característica estável de cada pessoa do que com uma opinião que muda conforme o momento”, explica Pedro Henrique Ramos, diretor-executivo do centro de pesquisas Reglab, em comunicado. “Campanhas e episódios pontuais afetam pouco a confiança, porque ela é construída e perdida de forma lenta”.

O estudo avaliou 26 plataformas divididas em cinco grandes categorias: redes sociais (ex.: Instagram), streaming (ex.: Netflix, YouTube), inteligência artificial (ex.: ChatGPT), governo digital (ex.: Gov.br) e economia de plataforma (ex.: Uber, iFood).

Em quase todas as categorias, a confiança percebida pelos participantes é alta e praticamente igual – tanto em relação às plataformas em si, quanto ao conteúdo por elas veiculado. A exceção está nas redes sociais, onde os brasileiros tendem a separar as duas coisas: 63% confiam no serviço oferecido, mas apenas 55% confiam no que circula lá dentro.

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Os pesquisadores atribuem isso à própria dinâmica das redes sociais, que permite a circulação de conteúdos sem curadoria ou checagem prévia. “O problema percebido não é o funcionamento da plataforma, mas a qualidade da informação”, afirma Thais Palanca, pesquisadora e uma das autoras do estudo. “As regras de moderação e transparência precisam focar na qualidade do conteúdo que chega ao usuário”, diz a pesquisadora.

A percepção da segurança também varia de acordo com a demografia – em especial quando o assunto é a proteção de adolescentes. Na nova edição, apenas 48,7% das mulheres entrevistadas concordaram que as plataformas protegem crianças e adolescentes, em comparação com 55,2% dos homens. “No Brasil, são [as mulheres] que concentram o trabalho de cuidado, o que as coloca mais perto da vida online de filhos e dependentes”, escrevem os pesquisadores, no relatório, com base em dados do IBGE.

A proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais foi tema do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, ou ECA Digital, que entrou em vigor em março deste ano. A lei impõe às plataformas uma série de novas obrigações e restrições, visando garantir a segurança, a privacidade e a proteção de dados pessoais de crianças e adolescentes.

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Mais de seis meses após a implementação do ECA Digital, a percepção pública sobre a segurança de menores de idade dentro das plataformas não melhorou. “O efeito do ECA Digital sobre a confiança, se vier, dependerá menos da aprovação da lei e mais de a implementação ser percebida por quem acompanha o uso das plataformas pelos mais jovens, em grande parte mulheres”, conclui o relatório.

O índice também avaliou o conhecimento dos brasileiros sobre as plataformas e novas tecnologias. Em comparação aos levantamentos passados, o conhecimento geral sobre as plataformas cresceu: 7 em cada 10 participantes afirmaram conhecer todas as plataformas examinadas pelo estudo; antes, eram apenas 6.

Esse crescimento, porém, tem acontecido de maneira desigual. Ao longo das três rodadas, a categoria sobre a qual os brasileiros mais adquiriram conhecimento foi inteligência artificial; porém, nesta rodada, esse conhecimento avançou mais entre as camadas sociais mais altas, e menos entre as classes mais populares.

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Enquanto categorias como streaming ou governo digital já se tornaram quase universalmente conhecidas, no caso da IA, a distância entre as classes altas e baixas voltou a se ampliar, chegando a cerca de 12 pontos percentuais (97,3% entre os mais ricos, 85,4% entre os mais pobres). Entre os membros da classe A, 92,7% dos entrevistados conheciam as quatro principais IAs avaliadas pelo estudo, incluindo as menos difundidas como Claude e Perplexity; em comparação, apenas 69,2% das classes D e E gabaritaram as mesmas quatro.

O estudo identifica essa desigualdade como uma nova fase da exclusão digital. Enquanto, no passado, a exclusão se dava pela falta de acesso às novas tecnologias, agora, após uma relativa universalização, é no conhecimento, na habilidade e no uso que essa desigualdade se manifesta.

O conhecimento também tem se ampliado – no estudo, as plataformas Gov.br, YouTube e Instagram, por exemplo, já eram quase universalmente conhecidas pelos entrevistados. Agora, porém, os pesquisadores observam essa desigualdade de conhecimento se deslocando para o âmbito das IAs.

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“O cenário aponta que, com a universalização da internet, o desafio das políticas públicas passa a ser o letramento tecnológico para evitar que as classes populares fiquem para trás na nova economia”, diz Marina Garrote, diretora de operações e pesquisa do Reglab.

A terceira edição do Índice Reglab de Confiança e Segurança na Economia Digital entrevistou 1.099 adultos conectados à internet, com margem de erro de 3 pontos percentuais, entre os dias 2 e 9 de outubro – período que incluiu o primeiro turno das eleições, em 4 de outubro. Portanto, não é possível dizer se o segundo turno teve qualquer impacto na opinião pública sobre as plataformas.

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