Acontece nas melhores famílias: você está lá cuidando da sua vida quando, do nada, um desaplaudido resolve vir encher seu saco ou te prejudicar.
Parece que essa gente escolhe a dedo os momentos errados, né? Tem quem reaja respirando fundo e procurando a paz interna. E tem quem reaja rasgando o verbo e proferindo os piores vitupérios que o dicionário pode produzir.
Curiosamente, a ciência diz que esse segundo grupo tende a ser mais honesto (no sentido de falar a verdade), em geral. Um estudo de 2017, publicado na revista Social Psychological and Personality Science, examinou em três etapas a relação entre o uso de palavrões e a sinceridade por meio de três pesquisas envolvendo quase 74 mil participantes. O objetivo era saber se as pessoas que mais usavam palavrões eram também as que menos mentiam.
Na primeira pesquisa, 276 participantes relataram a frequência com que usavam palavrões e responderam a uma escala de detecção de mentiras. Os pesquisadores observaram que os que tinham maior incidência de palavrões também apresentavam uma menor tendência a mentir.
Na segunda pesquisa, os cientistas analisaram as publicações no Facebook de 73.789 usuários e constataram que aqueles que utilizavam mais palavrões também apresentavam mais padrões linguísticos associados à honestidade e menos padrões associados ao engano.
Finalmente, na terceira pesquisa, os autores compararam, nos 50 estados dos EUA, a frequência de palavrões com indicadores de integridade de cada estado. Assim, foi possível verificar se aqueles estados onde se xingava mais também apresentavam maior honestidade coletiva.
Em todas as três pesquisas, foi observado o mesmo resultado: as pessoas que usam mais palavrões são também as que parecem mentir menos. Os autores fazem questão de ressaltar que os dados não permitem estabelecer uma relação de causalidade (ou seja, falar mais palavrões não é a causa de mentir menos, ou vice-versa). Porém, a correlação entre as duas coisas existe.
E por quê? Os autores apontam que o uso espontâneo de palavrões é “a expressão genuína e sem filtro das emoções”, por isso é mais associado a um discurso autêntico. Por outro lado, a fala mais limpa e polida, sem palavrões ou termos duros, pode ser associada a um discurso capcioso, que deseja enganar ou iludir em algum nível.
Inclusive, os autores apontam que pessoas acusadas de cometer crimes, mas que são inocentes, são mais propensas a usar palavrões quando negam as acusações do que os suspeitos culpados quando fazem o mesmo.
Agora, não é porque os palavrões são associados à honestidade/sinceridade que todo mundo vai adorar ouvir você falando. Os autores lembram que o contexto é importante: os palavrões podem ser associados a um comportamento antissocial e abusivo, à violação das normas sociais, a uma falta de autocontrole e a emoções negativas. Talvez sair xingando por aí não seja a melhor forma de transparecer sinceridade.

