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Cachorro A Folou: como um cãozinho ucraniano virou meme no Brasil

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No começo dos anos 2010, a jovem Iryna Kalamurza trabalhava como administradora de um estúdio fotográfico em Kiev, na Ucrânia. Nas horas vagas, gostava de usar o espaço para praticar a fotografia e testar diferentes tipos de iluminação. Um dia, resolveu fotografar Maya, sua cachorrinha da raça Jack Russell Terrier que sempre fazia companhia durante o expediente. Iryna disponibilizou os retratos em um banco de imagens digitais (neles, qualquer um pode comprar os direitos de uso de uma imagem).

Ela não sabia, mas aquelas fotos despretensiosas virariam memes do outro lado do mundo, estampariam perfis de redes sociais, camisetas, questões de matemática (!), placas erguidas em shows e até tatuagens. Catorze anos depois, Iryna ainda recebe mensagens de fãs emocionados de Maya, a cadelinha que eles conhecem por outros nomes – em geral, ela é chamada de Ai Folou ou A Folou.

O apelido surgiu com um vídeo postado no Twitter em 2021, que exibe diferentes fotos de Maya ao som da canção “I Follow Rivers”, da cantora sueca Lykke Li. A Folou é o jeito aportuguesado de escrever a letra chiclete que diz “I-I follow, I follow you deep sea, baby”. 

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Se você está confuso, fique tranquilo: você não está perdendo uma piada ou referência. É só isso mesmo – e talvez tenha sido a simplicidade e o nonsense da coisa que tenham conquistado tantas visualizações. 

Maya é fofíssima e o vídeo é engraçado, mas por que esse vídeo em específico viralizou, e outros tantos não, é uma resposta que talvez nunca encontremos, guardada dentro dos algoritmos misteriosos das redes sociais. O fato é que o vídeo foi repostado no YouTube algumas semanas depois e passou a circular no TikTok também. 

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Nove cães da raça Jack Russell Terrier, de pelagem branca e marrom, em poses variadas e expressões divertidas, incluindo um usando óculos de sol brancos e outro acenando com a pata, em fundo branco
Iryna Kalamurza/Reprodução

A expressividade e a versatilidade das fotos de Maya as tornaram preferidas não só entre marcas de pet shops e produtos para animais, mas também para todo tipo de meme. Há dezenas de variações de poses, ângulos e expressões: versões com carinha sorrindo, desconfiada, de óculos, curiosa… 

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No Brasil, pode ter colaborado o fato de os retratos de Maya se parecerem com os dos estereotipados vira-latas caramelo, que ganharam status de símbolo brasileiro nos últimos anos. A semelhança deu origem a incontáveis posts de pessoas mostrando que encontraram “cachorros A Folou” na rua de casa ou em anúncios. 

Por muito tempo, ninguém se importou em saber a fonte das fotos – pode ser por isso, aliás, que Maya é conhecida aqui como um cão macho, o A Folou. Com tantos milhões de memes e pets fofos rolando por nossas telas diariamente, é difícil ter noção de que todos eles são de verdade (ou, em tempos de IA generativa, quase todos). São bichos como todos os outros, fazendo caras fofas e engraçadas que seus tutores amam. Só que nem sempre há uma câmera profissional apontada para eles.

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Mulher loira sorridente, de camisa branca e jeans, sentada no chão de um estúdio fotográfico branco, abraçando um cachorro marrom e branco que lambe seu rosto. Equipamentos de iluminação com softboxes pretos e brancos estão ao redor
Iryna Kalamurza/Reprodução

É fácil imaginar, então, o choque e a confusão de Iryna em 2021, ao receber as primeiras mensagens de desconhecidos dizendo que amavam sua cadela. Até então, o único sucesso digital da cadela resumia-se a uma modesta conta no Instagram, pouco ativa. A fotógrafa conta que tem dificuldade com redes sociais, e só começou a postar mais com a chegada dos novos seguidores. 

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“Para ser honesta, ainda é um sentimento bem surreal. Eu comecei a receber tantas mensagens gentis, comoventes, de pessoas que estavam bem emocionadas, tipo, em lágrimas mesmo”, ela conta, em entrevista à Super. “É, ao mesmo tempo, esquisito e lindo que pessoas de outro continente estejam dizendo palavras tão bonitas sobre minha cachorra.”

Hoje, a fotógrafa mora em Barcelona, na Espanha. Em geral, nem os amigos espanhóis nem os ucranianos conseguem entender a dimensão do sucesso de Maya no Brasil. 

Existem memes e memes. Todos são nichados e temporários, em diferentes medidas. Alguns viram figurinhas que duram uma semana e acabam abandonadas no fundo da lista do WhatsApp ou da galeria de alguém. Outros, bem mais raros, perduram por anos. Mudam de sentido, de meio, de público, se metamorfoseiam em outros fenômenos culturais, de forma que, depois de algum tempo, é até difícil lembrar como foi que aquilo começou. 

Os brasileiros ficam em segundo lugar no ranking mundial de horas conectados à internet, atrás apenas dos sul-africanos. Somos uma nação cronicamente online. Vem daí o sentido de um professor de matemática usar uma imagem do “cachorro ‘A A FOLOU’” para fisgar a atenção de alunos no TikTok e, de quebra, explicar como calcular fatoriais.

@profdenisalexandre

Nunca esqueçam o conceito de fatorial. A A FOLOU A FOLOU IU DXIPS BABY #profdenis #matematica #enem

♬ som original – Prof Denis Alexandre

E também vem daí a necessidade que pelo menos cinco pessoas (pelas contas de Iryna) já sentiram de eternizar Maya/A Folou em tatuagens. “É loucura, eu vejo que ela virou um símbolo, parte da cultura pop”, diz Iryna.

Cachorro da raça Jack Russell Terrier, branco com manchas marrons, usando uma bandana com as cores da bandeira do Brasil, verde, amarelo e roxo com estrelas brancas. Ele está de pé, olhando para frente, com a língua para fora e expressão feliz, em um fundo branco
Iryna Kalamurza/Reprodução

Em teoria, para adquirir fotos de um banco de imagens, é preciso pagar um valor, que é dividido entre o fotógrafo e a plataforma. Na prática, é fácil obter versões de baixa qualidade  – e os memes não se importam muito com a qualidade. A fotógrafa faz questão de ressaltar que não se incomoda com o uso não licenciado das fotografias de Maya para esses fins. Para ela, o problema é quando as fotos de Maya são usadas indevidamente por marcas e produtos, com fins comerciais.

Em 2022, Maya também virou meme em outras partes do mundo, dessa vez com a canção “Summer”, de Calvin Harris. Para muitos, foi assim que ela ficou conhecida como Wenomechainsama. Parece uma palavrona impossível, mas faz sentido se você ouvir a música: é uma simplificação do início da letra, que diz “when I met you in the Summer”. Uma leitura fonética para fazer qualquer um se tornar fluente em inglês, Wenomechainsama.

O meme ficou tão popular que até o próprio Calvin Harris compartilhou uma versão, em que alguém nos bastidores acompanha a “letra” da música [veja abaixo].

@calvinharris

Now its easier to sing along #wenomechainsama #tumajarbisaun #wifenloof

♬ original sound – Calvin Harris

Em outro post viral no TikTok, um fã posa com um cartaz em um show de Calvin Harris, com a foto de Maya e o seu “nome”. 

Homem sorridente de óculos escuros segura cartaz com foto de cachorro e balão de fala Wenomechainsama em show lotado, com palco e telões ao fundo exibindo um cantor
TikTok/antoniogarcia982/Reprodução

Todo tutor de pet é um pouco suspeito para falar do seu próprio animal, mas Iryna garante que Maya era alegre, parceira e aventureira. Elas iam para todo lado juntas, e até faziam trilhas. Para Iryna, sua foto favorita de Maya não é nenhuma das que foram tiradas em estúdio, mas uma que mostra as duas observando a paisagem após uma trilha nos Cárpatos Ucranianos.

“Como lá é o ponto mais alto da Ucrânia, não são muitos ucranianos que já visitaram. Mas a Maya foi duas vezes!”, conta. 

Mulher de cabelos loiros presos, camisa xadrez vermelha e jeans, sentada na grama com um cachorro marrom e branco, olhando para montanhas distantes sob céu nublado. Uma mochila de trilha e um colchonete roxo estão ao lado dela.
Iryna Kalamurza/Reprodução

A cachorrinha faleceu em abril de 2026, aos 16 anos. Logo após a morte, Iryna se questionou se as mensagens, produtos e memes estampados com a imagem de Maya tornariam seu luto mais difícil. 

“Mas, no final, acho que esse contato foi bastante terapêutico para mim. Gosto de ver o impacto que causamos. Mesmo que não esteja mais conosco, ela ainda faz as pessoas rirem, ela vai a shows”, conta Iryna. “Agora, eu vejo mais como algo precioso e único que compartilhamos. É maior do que uma perda. É um sentimento agridoce, mas, de um jeito, ela continua vivendo. E isso me deixa feliz.”

Mulher loira sorrindo com os olhos fechados, usando camisa branca e colar de pérolas, enquanto um cachorro marrom e branco com a pata na orelha dela a olha
Iryna Kalamurza/Reprodução
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