É praticamente impossível admirar a antiga cidade de Machu Picchu sem uma multidão de turistas no meio do caminho. As ruínas incas, uma das sete maravilhas do mundo moderno, recebem cerca de 1,6 milhão de visitantes por ano. Mas nem todos sabem que há uma “outra Machu Picchu”, bem mais vazia, na região dos Andes.
É Choquequirao, descrita às vezes como a “irmã mais nova de Machu Picchu”. Construída como parte de um assentamento do Império Inca entre os séculos 15 e 16, a cidade está situada a três mil metros de altitude e fica a 89 km da atração mais famosa.
Conhecê-la exige tempo e esforço. Isso costuma afastar os turistas comuns, que preferem a facilidade do ponto turístico mais conhecido. Não existe estrada, trem ou aeroporto perto de Choquequirao. Para chegar lá, é preciso andar a pé e cruzar o cânion do rio Apurímac; a trilha exige subidas e descidas em terrenos montanhosos por vários dias.
A dificuldade é tamanha que até mesmo pesquisadores têm pouco conhecimento sobre a cidade. Ela fica tão escondida na selva que os colonizadores espanhóis não a encontraram. Por isso, é provável que grande parte de suas estruturas ainda permaneçam soterradas.
A irmã de Machu Picchu
Os arqueólogos estimam que o complexo Choquequirao foi construído por volta do ano 1450, mas ainda não entendem exatamente qual era o propósito da cidade. O mais provável, porém, é que o assentamento tenha sido um centro religioso, administrativo ou um elo estratégico entre os Andes e a Amazônia.
O complexo arqueológico é composto por terraços agrícolas, praças cerimoniais e estruturas que evidenciam um planejamento avançado. Entre seus elementos mais representativos se destacam os terraços decorados com figuras de lhamas, elaboradas com pedras brancas gravadas nos muros – um detalhe bem característico da arquitetura inca.
Também chamam atenção as “Moradias dos Padres” e as “Casas Principais” com acesso à praça, onde provavelmente residiam os nobres do local.
O que fica bem claro é que deve ter sido um local importante para os incas. Seu próprio nome – que, na língua quíchua, significa “berço de ouro” – é uma indicação disso. De acordo com pesquisadores, a menção ao ouro não necessariamente aponta para a existência literal do elemento na região. Na verdade, poderia se tratar de um indicativo de valor, prestígio ou sacralidade.
Resistência
Anos mais tarde, a localização afastada de Choquequirao virou uma área estratégica. Com a conquista espanhola sobre a região no século 16, é provável que a resistência inca tenha ido até o assentamento como refúgio. No entanto, a resistência durou pouco e eventualmente a cidade foi abandonada.
Foi somente em 1909 que Choquequirao voltou a ter reconhecimento do público. Naquele ano, a cidade foi descrita pelo explorador norte-americano Hiram Bingham – dois anos antes da própria Machu Picchu. Demoraria ainda mais algumas décadas para que o governo peruano voltasse sua atenção à preservação da cidade (isso só aconteceu a partir de 1980).
Nos últimos anos, como tentativa de atrair mais turistas ao local, autoridades têm promovido a construção de um teleférico para chegar até Choquequirao. Com um investimento estimado em US$ 261 milhões, o projeto planeja ligar pontos estratégicos entre as regiões de Cusco e Apurímac. Além disso, o programa promete melhorar as trilhas já existentes como alternativa a pé até Choquequirao.
“A previsão é de que o projeto do teleférico de Choquequirao seja licitado por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP), o que permitirá aumentar o fluxo turístico anual de 8 mil para um milhão de pessoas”, diz o governo em nota.
Facilitar a chegada de turistas poderia impulsionar a economia da área, que é rural e ainda subdesenvolvida no Peru. Mas, segundo a BBC, o teleférico gerou um conflito entre populações que exigem ser incluídas na rota para se beneficiarem do desenvolvimento e do fluxo de visitantes.
