Existem 590 mil brasileiros morando no Marajó. O Brasil conhece o arquipélago no norte do Pará principalmente pela quantidade de búfalos na região, que quase se equipara ao número de habitantes. São 460 mil cabeças com chifres facilmente encontradas pelas ruas das cidades, nos campos da zona rural e se banhando nos rios e lagos. Os búfalos do Marajó atraem turistas de todo o mundo que pagam para tirar fotos montados ou fazendo carinho nos animais.
Um homem vindo da Itália, no entanto, chegou no Marajó nos anos 1970 não interessado nos búfalos, mas justamente nas pessoas que moravam no arquipélago. Hoje, é seguro afirmar que boa parte dos quase 600 mil habitantes do Marajó conhecem um nome que é anônimo para o resto do Brasil: Giovanni Gallo, ou apenas “padre Gallo”.

Um italiano no Marajó
Os moradores falam que existe o Marajó antes e depois da passagem do padre Giovanni Gallo. Ele nasceu em Turim, na Itália, em 1927. Se tornou sacerdote pela Companhia de Jesus e atuou em projetos sociais na Sardenha e Suíça. Mas a parte mais importante de sua história começa quando ele é enviado ao Brasil, em 1970. Trabalhou na Bahia e no Maranhão antes de escolher se mudar para o Marajó – que, segundo ele, era onde nenhum padre queria ir trabalhar.
Gallo morou em Santa Cruz do Arari, uma cidade na beira do rio em que a maioria das casas são palafitas. Lá ele não só ministrava missas (como fora designado a fazer) mas também se interessou em viver o estilo de vida do caboclo marajoara. Aprendeu a pescar, a se comunicar com a comunidade, e estudou as crenças e superstições locais. Ele aprendeu a viver, em suas palavras, a “ditadura das águas”, já que metade do ano é dominada por chuvas e cheias dos rios, enquanto a outra vive a seca.

Mais do que isso, Gallo se interessou pela história arqueológica do Marajó. Sociedades indígenas complexas viveram no arquipélago antes da chegada dos portugueses no ano 1500. Há evidências de manejo de terra, construção de lagos artificiais, rituais funerários e de fertilidade, além de uma divisão social do trabalho – tudo isso entre os anos 800 e 1300, aproximadamente. Só que esses povos não deixaram escrita: os arqueólogos e pesquisadores extraem informações das cerâmicas antigas encontradas sob o solo do Marajó.

Certa vez, o padre recebeu a visita de um amigo que lhe entregou um pacote. “É um monte de coisa que não presta, do jeito que o senhor gosta”. Gallo recebia ali alguns artefatos arqueológicos, como pedaços de cerâmicas decoradas. Essa foi a semente do que viria a se tornar o Museu do Marajó.
O Nosso Museu
Em alguns locais do Marajó, a cerâmica arqueológica literalmente brota do chão. Com o desgaste do solo, os artefatos que estavam soterrados acabam vindo à superfície. Por isso, é comum que as pessoas encontrem cacos de cerâmica em seus próprios quintais e propriedades. A comunidade passou a entregar ao padre Gallo tudo que encontravam de extraordinário – o que ia desde peças de cerâmica e fósseis até um bezerro de duas cabeças que havia nascido na região.

Assim foi se construindo o acervo do primeiro Museu do Marajó, que na época era chamado de O Nosso Museu de Santa Cruz do Arari. Ele foi inaugurado oficialmente em 1977, no dia do Círio de Nazaré. A intenção era que o museu fosse feito pelo povo e para o povo, como uma forma de valorização da cultura local.
Nessa altura do campeonato, o padre Gallo já era mais querido e popular do que qualquer político da região. O prefeito achou que ele pudesse se candidatar ao cargo público (já que, é claro, Gallo se elegeria com facilidade). O padre passou a sofrer ameaças, e relata em seu livro que teve uma arma apontada para si. Aos poucos, estava sendo expulso de Santa Cruz do Arari.
O maior golpe veio da própria Igreja Católica. Gallo tinha desentendimentos ideológicos com o bispo da época, que resolveu retirá-lo do Marajó. O padre teve que romper com a igreja e abdicar da batina para continuar no Pará.
Para fugir da perseguição política e continuar seus trabalhos sociais, Giovanni Gallo resolveu mudar de cidade. Transferiu o museu e seu acervo para Cachoeira do Arari, um município vizinho – e igualmente precário. É lá onde está atualmente o Museu do Marajó.
O novo museu
“Ele percebeu que a comunidade não tinha noção do quão rica era a sua cultura”, diz Dona Zezé, moradora do Marajó que trabalhou com o padre Gallo. “Ele começou a fazer as pessoas entenderem isso […] Eu arrisco dizer que o que ele fez pelo Marajó nenhum paraense fez”.
Zezé é cozinheira premiada e dona do restaurante Quintal da Zezé, localizado em frente ao Museu do Marajó. Ela conta que toda a comunidade se uniu em mutirões para reformar uma antiga fábrica da cidade, que daria espaço ao novo museu do padre Gallo. O espaço foi limpo e restaurado pelos próprios moradores de Cachoeira do Arari. Em 1987, o Museu do Marajó foi inaugurado na cidade.
Na cerimônia de inauguração, Gallo fez um discurso explicando por que decidiu construir o museu ali, e não em cidades mais acessíveis e próximas de Belém, como Soure ou Salvaterra: “Nós criamos um museu que vem ser um polo de desenvolvimento. Isto é, o Museu do Marajó ajudará Cachoeira do Arari a conseguir todas aquelas estruturas que outros municípios já tem, mas nós ainda não temos”.

O museu não guardava só peças arqueológicas e fósseis encontrados no Marajó. Mais do que isso, o espaço era uma exposição sobre o estilo de vida do povo marajoara: suas crenças, culinária, vestimentas, hábitos… Basicamente, tudo que Gallo aprendeu ao longo de seus anos morando no arquipélago.
“Apesar de ter começado com os fragmentos arqueológicos, ele dizia que a principal peça do museu era o homem marajoara. Ele queria que os visitantes conhecessem a realidade do homem marajoara: como ele vive, quais são suas crendices, formas de falar e vestir”, diz Zezé. “Ele saía com os vaqueiros, os pescadores, pra viver na pele e depois contar essa história”.

Alguns dos itens mais curiosos eram os chamados “computadores caipiras”: estruturas de madeira que os visitantes podiam tocar, abrir e descobrir informações à medida em que interagiam. “O brasileiro tem os olhos nas pontas dos dedos. Tem que mexer nas coisas”, diz Gallo em entrevista ao Globo Repórter em 1996. A reportagem descreve o Museu do Marajó como o “primeiro museu caboclo do mundo”.
O bordado marajoara
Entre as peças arqueológicas, os visitantes podem ver os grafismos produzidos pelos povos que habitaram o Marajó centenas de anos antes. Esses padrões e iconografias estão esculpidos nas cerâmicas em exibição no museu. Giovanni Gallo produziu um livro que mostra e explica esses grafismos, chamado Motivos ornamentais da cerâmica marajoara. Na publicação, ele também inclui gráficos de ponto cruz mostrando como reproduzir os grafismos em bordado. Mas por quê?
“Aqui no Marajó, ele via as mulheres muito submissas aos maridos. Então ele cria esse livro pensando nas mulheres. Elas podiam ter esse trabalho de bordar sem sair de casa, para não depender só do dinheiro que o homem traz”, diz Zezé.

Gallo criou um grupo de bordadeiras cadastradas no Museu do Marajó e dava o material para elas bordarem em casa, sem que isso atrapalhasse a vida doméstica. Então, ele pagava às bordadeiras por esse serviço e depois vendia as vestimentas com os bordados.
“Essa foi uma forma de empoderamento das mulheres do Marajó”, conta Zezé, que tem uma enorme bandeira bordada na entrada do seu restaurante. Ela conta que sua filha adora bordar.

O museu depois de Gallo
Uma das principais angústias de Gallo era a continuidade do museu após a sua morte – e ele estava certo em se preocupar. Sem uma liderança proeminente, era possível que o museu ficasse de lado, sem recursos para se manter aberto.
Giovanni Gallo morreu em 7 de março de 2003, aos 76 anos, por infecções decorrentes de uma úlcera perfurada. Ele faleceu no Hospital Porto Dias em Belém, e seu corpo foi levado de avião para ser sepultado em Cachoeira do Arari. Ele está enterrado no quintal do Museu do Marajó.

Após sua morte, restou à Associação do Museu do Marajó cuidar do patrimônio. A associação é composta por moradores de Cachoeira do Arari, incluindo Zezé. A comunidade manteve o museu aberto com a ajuda da prefeitura para arcar com a conta de luz.
Com o passar do tempo, no entanto, foram necessários reparos que a associação não tinha dinheiro para executar. Zezé conta que muitas vezes pediu recursos e ajuda ao governo do estado para reformar o museu, mas sempre recebia uma resposta negativa.
Em 2018, o Brasil passou por uma das maiores catástrofes museológicas da história do país: o incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro, que destruiu 18,5 milhões de peças do acervo. A tragédia acendeu o alerta para a verificação do status de segurança de outros museus brasileiros. E foi assim que o Ministério Público acionou a vistoria do corpo de bombeiros para verificar o Museu do Marajó.

No dia 12 de dezembro, no dia do aniversário do museu, chegou o laudo informando que o prédio não estava apto a funcionar. Havia problemas no telhado, rachaduras nas paredes, infestação de cupins e um sistema de prevenção de incêndios praticamente inexistente. O museu foi fechado para que fossem feitas as adaptações solicitadas.
“A gente pediu para o promotor um prazo para que a gente reunisse a comunidade e informasse que o museu ia fechar por tempo indeterminado, porque a associação não tinha recursos para fazer as adequações”, diz Zezé. “Foi aí que ele disse que isso era um patrimônio, e portanto era obrigação do governo do estado”.
O promotor foi a Belém e pediu uma audiência pública com o governador, Helder Barbalho. O governador visitou o Museu do Marajó e assinou um termo de compromisso com a reforma. O museu ficou sob a tutela da Secretaria de Cultura do Pará (Secult).
Em 2022, após quatro anos fechado, o museu reabriu com a cara que tem hoje. Ele mantém peças arqueológicas em exposição e alguns computadores caipiras. Devido às adequações para o corpo de bombeiros, não há espaço para expor todo o acervo. Parte dele está na reserva técnica localizada na casa ao lado, que pertence à Associação. A falta de espaço de exibição é uma das principais críticas de Zezé à reforma.

Outra dificuldade é o acesso ao Museu do Marajó. Quem visita o Marajó geralmente se hospeda em Soure ou Salvaterra, cidades mais próximas de Belém. Saindo de Salvaterra, é necessário dirigir por uma hora até o trajeto ser interrompido pelo Rio Camará, com largura de 100 metros de uma margem a outra. Não há ponte conectando as margens. Os visitantes chegam a esperar uma hora para pegar uma balsa para fazer a travessia. O governo do estado aprovou a licitação da ponte em 2022, mas ela ainda não foi construída.
Mesmo com a dificuldade de acesso, o Museu do Marajó vale a pena ser visitado. Não só pelo acervo e história riquíssimos, mas também pelas pessoas que ajudam a mantê-lo de pé.
