O El Niño alcançou uma marca histórica no mês de outubro. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a temperatura da superfície das águas no centro do Oceano Pacífico – uma região chamada pelos meteorologistas de “Niño 3.4” – ficou 2,47 °C acima da média histórica para o mês, que é de cerca de 26,7 °C.
Trata-se da maior anomalia já registrada nessa área em um mês de outubro. E, no dia 5 de outubro, as águas daquela parte do Pacífico chegaram a 30,06 °C – é a primeira vez que ultrapassaram os 30 °C desde que esse dado começou a ser coletado. Com anomalias acima de +2 °C, o episódio costuma ser chamado de “Super” El Niño, como é o caso atual.
O Super El Niño é um evento raro, com potencial de alterar os padrões de chuva e temperatura em várias partes do mundo. A tendência é que, quanto maior o aquecimento no Pacífico, maior a chance de efeitos intensos – mas isso não é garantido. Vale dizer que o termo não é uma categoria científica exata – o Inmet, por exemplo, prefere falar apenas em “El Niño muito forte”, evitando o prefixo “super”.
Por enquanto, nada indica que o fenômeno esteja perdendo força. O El Niño se estabeleceu em junho e, desde então, tem se intensificado em ritmo acelerado. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o fenômeno deve atingir seu pico somente em dezembro e pode se tornar um dos maiores registrados desde 1950, quando começaram as medições detalhadas.
Para o trimestre de novembro a janeiro, o Inmet indica maior probabilidade de chuva acima da média no Sul e em partes do Sudeste e do Centro-Oeste, e abaixo da média em boa parte do Norte e em áreas do Nordeste. As temperaturas tendem a ficar acima do normal em quase todo o país.
Meteorologistas já comparam esse episódio com o Super El Niño de 1982-83, um dos eventos climáticos mais fortes e devastadores do século 20. Em outubro de 1982, a anomalia na região Niño 3.4 chegou a +2,07 °C – o recorde para o mês até agora –, e o fenômeno se prolongou até o primeiro semestre de 1983. Desde 1950, quando começa a série histórica usada como referência, aconteceram três “super” eventos: 1982-83, 1997-98 e 2015-16.
O fenômeno por trás do El Niño
Protagonista das manchetes de tempos em tempos, o El Niño é um fenômeno climático natural que ocorre há milhares de anos. Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas na superfície do Pacífico ao longo da linha do Equador, ele altera a circulação atmosférica global e modifica os padrões de chuva e temperatura em diversas regiões do Brasil e do mundo.
O El Niño está diretamente associado aos ventos alísios – um sistema de ventos que sopram de leste para oeste na faixa do Equador. Em condições normais, esses ventos empurram as águas da superfície, aquecidas pelo Sol, do litoral da América do Sul para o oeste, em direção à Ásia e à Oceania.
Conforme a camada aquecida do topo vai embora do litoral sul-americano, a água que está lá no fundo, mais fria, sobe para ocupar seu lugar – um processo chamado ressurgência. O resultado é um oceano mais quente a oeste e mais frio a leste. Esse gradiente de temperatura mexe com os ventos e serve como motor da circulação atmosférica no Pacífico.
Isso acontece porque o oceano quente, do lado asiático, aquece o ar. Já o oceano frio, do lado americano, esfria o ar. O ar quente, que é mais leve e menos denso, sobe e forma uma área de baixa pressão; o ar frio, mais denso, desce e forma uma área de alta pressão.
Como o ar se desloca da alta para a baixa pressão, os ventos perto da superfície sopram de leste para oeste – e, lá no alto, o ar faz o caminho inverso. Esse circuito é a chamada Circulação de Walker, que ajuda a manter os alísios soprando.
Um ano de El Niño, por sua vez, é resultado do enfraquecimento dos ventos alísios. Com menos vento, esse equilíbrio padrão é quebrado: as águas quentes acumuladas no oeste se espalham de volta para o centro e o leste do Pacífico, a subida de água fria perto da América do Sul diminui e a diferença de temperatura entre os dois lados se reduz. Isso enfraquece ainda mais os alísios, num ciclo que se retroalimenta.
O El Niño sempre existiu. Mas, com o aumento gradual na temperatura média do planeta desde o século 19, induzido pela emissão de gases de efeito estufa, seus efeitos ficam mais intensos – e geram enchentes, secas e ondas de calor cada vez mais devastadoras.
Essas alterações têm repercussões variadas. Na América Central, no sul da África, no Sudeste Asiático e na Austrália, é comum ocorrer secas. Já a costa do Peru e do Equador, o leste da África e o sul dos Estados Unidos costumam vivenciar chuvas torrenciais e enchentes. Os ciclones e tufões no Pacífico também podem se intensificar, mas cada evento de El Niño possui suas particularidades.
No Brasil, os efeitos variam conforme a região. O Norte e o Nordeste, por exemplo, tendem a enfrentar secas, enquanto o Sul registra chuvas acima da média. Isso pode afetar a agricultura, o abastecimento de água e aumentar o risco de desastres.

