Os cães foram domesticados há cerca de 20 mil anos. Desde então, seus cuidadores humanos cuidam de sua reprodução para selecionar traços desejáveis. Foi assim que criamos cães caçadores, de guarda, pastores, de corrida e cães cujo talento específico é serem fofos e amigáveis. A infinidade de raças e formatos de cães não esconde que nós mudamos nossos melhores amigos da forma que parece mais conveniente.
Agora, avanços tecnológicos podem permitir uma mudança ainda mais profunda nos cães: uma startup de biotecnologia dos EUA experimenta criar os primeiros cães modificados geneticamente. Os pesquisadores utilizaram a técnica CRISPR-Cas9, cuja invenção rendeu um prêmio Nobel em 2020, para modificar os genes que codificam uma proteína responsável pela maioria das alergias em humanos.
A empresa se chama Kindred Companion Sciences, e os resultados do experimento foram publicados em agosto na revista CRISPR Journal, em um artigo revisado por outros cientistas. Até agora, os achados são otimistas: duas beagles geneticamente modificadas, Alfie e Bailey, vivem perfeitamente há dois anos, sem nenhum efeito adverso até agora. E sem provocar alergia em humanos.
O experimento começou usando a técnica CRISPR para desativar um gene conhecido como Can f 1, que é quem passa a receita de um dos principais alérgenos caninos. Depois, os cientistas transferiram os genomas editados dessas células para embriões de cães, que foram, então, implantados em uma cadela. Ela recebeu 25 embriões; deles, dois foram bem sucedidos e nasceram em setembro de 2024.
Mais tarde, os cientistas comprovaram que a proteína Can f 1 não foi detectada na saliva nem nos pêlos de Alfie e Bailey – as duas vias pelas quais a maioria das pessoas é exposta aos alérgenos. O sequenciamento completo do genoma também mostrou que não houve outras mudanças inesperadas e detectáveis em nenhum dos trechos de DNA analisados.

Mas os animais ainda precisam ser observados em mais detalhes antes que a segurança da modificação seja garantida. É possível que efeitos adversos apareçam com o tempo, ou quando a empresa começar a produzir cães em número suficiente para detectar efeitos colaterais raros.
A empresa espera criar “animais fundadores” – ou seja, que possam se reproduzir naturalmente e passar a característica para frente. Se dois animais geneticamente modificados cruzarem entre si, os filhotes também terão a mesma modificação – e esse pode ser o início de uma linhagem de cães hipoalergênicos.
Ainda falta bastante tempo para que cães como Alfie e Bailey possam ser comprados, já que a alteração genética precisa ser aprovada pela FDA, o órgão regulador dos EUA. Além disso, nem todos os alérgicos estão protegidos por essa modificação: outras proteínas, como a Can f 2, também podem provocar alergias.
Atualmente, não existem cães que sejam verdadeiramente hipoalergênicos. Existem algumas raças que soltam pouco pelo – como shih tzus, poodles e schnauzers – e isso pode ser suficiente para quem tem alergias leves. Mesmo assim, esses cães ainda produzem alérgenos e podem provocar coceiras e espirros por aí.
Em gatos, uma edição genética semelhante já foi realizada há dois anos. Mesmo assim, os felinos hipoalergênicos também ainda não estão disponíveis ao público.
“Como alguém que convive com alergia a cães, esse trabalho é profundamente pessoal. Durante a maior parte da minha vida, achei que nunca teria um cão, mas já vivo com a Bailey há quase dois anos. Ela é uma cadela feliz, saudável e incrivelmente meiga, que me lembra todos os dias por que esse trabalho é importante”, afirma Matt Walker, cofundador da Kindred Companion Sciences, em comunicado.

A edição genética é sempre um tema que levanta polêmicas e opiniões controversas. Embora especialistas expressem preocupações éticas, no caso dos cães, as modificações não são tão diferentes das práticas de criação e domesticação de longa data. Na verdade, não faltam exemplos de raças com problemas de saúde derivados do cruzamento e da seleção de traços extremos – como os cães de focinho achatado, que respiram mal.
“No fim das contas, ambas as práticas estão produzindo animais para fins de companhia”, afirma Alison Van Eenennaam, especialista em genética animal da Universidade da Califórnia em Davis, que não participou da pesquisa, ao New York Times. “Não é a tecnologia que está criando as questões éticas.”,
“Os parâmetros éticos das pessoas variam”, acrescentou Walker, em entrevista ao New York Times. “Para mim, isso parece justificado pelos benefícios potenciais, desde que a saúde animal seja protegida.”
Walker aponta que para muitas pessoas, incluindo ele, as alergias impedem a adoção de cães de abrigo – a edição genética é a única coisa que tornou possível que ele tenha um relacionamento com cães. “Também estou muito empenhado em aplicar esse trabalho a cães de serviço [como cães-guia, por exemplo] para pessoas alérgicas”, disse, na mesma entrevista.
