Uma mulher filipina de 52 anos chegou ao pronto-socorro de um hospital local com sintomas preocupantes. Durante quatro meses, a paciente dizia sentir dores de cabeça e alucinações visuais intermitentes. Apesar de conseguir falar, ela apresentava dificuldades para nomear objetos, repetir palavras e seguir comandos simples.
A princípio, médicos tinham dúvidas sobre qual seria o possível diagnóstico. Como ela relatava ver animais e pessoas que não estavam de fato presentes, a equipe de plantão chegou a cogitar a possibilidade de um transtorno psiquiátrico. Mas os problemas cognitivos da paciente pesaram a favor de uma investigação mais ampla, com uma bateria de exames.
O primeiro deles, um eletroencefalograma (EEG) com atividade cerebral considerada anormal, levantou a suspeita de que as alucinações estariam relacionadas a convulsões. Foram os exames de imagem, porém, que enfim revelaram a origem do mistério: havia cistos espalhados por todo o cérebro da paciente.
Muitos dos cistos continham um ponto minúsculo brilhante, conhecido como escólex, que corresponde à “cabeça” da tênia do porco (Taenia solium). O diagnóstico final foi de neurocisticercose, uma infecção grave do sistema nervoso central em que larvas da tênia de porco se alojam no cérebro.
A mulher não fazia ideia do que era a doença nem onde ou como foi infectada. O caso dela virou um relato publicado no New England Journal of Medicine em julho deste ano por médicos do Jose R. Reyes Memorial em Manila, nas Filipinas.
Neurocisticercose
A tênia de porco costuma se manifestar em forma de infecção intestinal. Popularmente conhecida como teníase, o parasita se instala no organismo com a ingestão de carne crua ou mal cozida que estejam contaminadas.
Há, porém, uma outra maneira dessas criaturas entrarem no seu organismo: você pode ingerir seus ovos microscópicos. Uma vez ingeridos, os ovos da tênia eclodem no intestino, liberando larvas que podem entrar na corrente sanguínea e migrar para outros tecidos do corpo – inclusive, o cérebro. Essa é a versão da doença que chamamos de neurocisticercose.
Uma via comum de infecção é a transmissão fecal-oral: uma pessoa infectada pela tênia intestinal elimina ovos microscópicos nas fezes e, devido à higiene precária das mãos ao preparar alimentos ou até mesmo ao tocar em superfícies, eles podem acabar sendo ingeridos por outra pessoa. Neste caso, a transmissão acontece por meio de alimentos ou água contaminada.
No ano anterior à infecção, por exemplo, a mulher filipina havia frequentado centros de evacuação (construídos para abrigar a população durante desastres naturais). Segundo os médicos, as condições de saneamento e higiene no manuseio de alimentos do local eram precárias – o que aponta o centro como a origem provável do contágio.
Felizmente, o caso teve um desfecho positivo. Com o uso de antiparasitários, como albendazol e praziquantel, os parasitas no cérebro da paciente foram tratados, e, um mês depois, seus sintomas haviam desaparecido. Novos exames de imagem do cérebro mostraram que os cistos diminuíram e os pontos característicos tinham sumido.
A neurocisticercose pode ser fatal. Isso porque, enquanto morrem, parasitas podem provocar inchaço no cérebro. Somado a isso, os cistos podem obstruir o fluxo do líquido cefalorraquidiano ao redor do cérebro, o que também pode causar convulsões.
No mundo, 50 milhões de pessoas já foram infectadas pela tênia do porco ou pela tênia do boi (Taenia saginata). A de porco em específico ainda é considerada uma doença endêmica em áreas da América Central e da América do Sul, assim como em parte da África e da Ásia.
A infecção está geralmente associada a condições sanitárias precárias, higiene inadequada, defecação a céu aberto, presença de suínos criados soltos e a pobreza. Para todas as formas da doença, a melhor forma de prevenção consiste no cozimento completo da carne, boas práticas de higiene pessoal e saneamento básico adequado – além do controle na criação de animais, em ambientes controlados e higienizados.
