O Atacama, no norte do Chile, é um dos lugares mais procurados do mundo por sua paisagem singular, que atrai cerca de 1 milhão de turistas por ano. Mas, a poucos quilômetros dali, há outra atração, bem menos admirável: mais de 60 mil toneladas de roupas descartadas. Ao longo dos últimos 15 anos, uma montanha de roupas tem ocupado 300 hectares da região.
Segundo imagens da SkyFi, uma plataforma de imagens de satélite, as pilhas formadas são tão grandes que podem ser vistas do espaço. O fenômeno levou a Organização das Nações Unidas (ONU) a classificar o local como uma “emergência ambiental e social” e considerá-lo uma consequência direta de um modelo de consumo insustentável, baseado na produção em massa de vestuário barato – o chamado fast fashion.
A indústria da moda rápida é responsável por cerca de 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa e representa a segunda maior indústria consumidora de água no mundo. O mercado do fast fashion tem crescido desde a década de 2000, quando a produção de roupas começou a dobrar, e os consumidores passaram a comprar 60% mais, à medida que o tempo de uso de cada peça caiu pela metade.
E tudo que é produzido, é claro, precisa eventualmente ser descartado. Estima-se que três quintos de todas as peças de roupa acabem em aterros sanitários ou incineradores no prazo de um ano após a produção – o que equivale a um caminhão carregado de roupas usadas sendo descartado ou queimado a cada segundo.
A Europa é a principal exportadora mundial de roupas descartadas, com 30% do total global, seguida do Reino Unido (16%) e dos EUA (15%). Algumas dessas toneladas vão parar diretamente no Deserto do Atacama, nos arredores de Alto Hospicio, uma comuna e cidade vizinha ao porto de Iquique, na região de Tarapacá, no norte do Chile.
A localização é importante para explicar a presença da indústria têxtil na região: a montanha de roupas está a poucos quilômetros do porto de Iquique, um lugar estratégico no país, conhecido por abrigar uma zona franca onde operam mais de mil empresas que comercializam seus produtos isentos de impostos.
Com isso, as roupas usadas e peças não vendidas chegam ao consumidor final livres de impostos e com custo reduzido. Parte delas acabam sendo revendidas em outros países da América Latina, como Argentina, Peru, Bolívia e o próprio Brasil, e o que sobra vai parar no Atacama.
Entre os itens descartados, o catálogo é curioso. Investigações realizadas pela ONG Ekō e pelo coletivo chileno Desierto Vestido identificaram roupas de marcas internacionais como Zara, H&M, Adidas, Nike, Levi’s, Tommy Hilfiger e Hugo Boss. Muitas ainda possuem as etiquetas originais, o que indica que algumas peças nunca foram vendidas.
Segundo a revista Dazed, apenas 15% das roupas descartadas no deserto do Atacama foram usadas pelos donos. A maioria são jogadas fora pelas próprias empresas, que renovam o estoque a cada nova temporada.
Moradores da região, em situação de vulnerabilidade social, fizeram do “cemitério” de roupas parte da economia local e costumam vasculhar o depósito em busca de peças para revender. Mesmo assim, esse trabalho não dá conta do volume de roupas descartadas que chega ao Chile todos os anos.
E não é só no Atacama: a maioria de instalações do tipo está localizada no Sul da Ásia ou na África, regiões que também não conseguem dar conta do volume de cargas da indústria têxtil.
Além disso, as roupas formam um grande problema ambiental. A maioria ali, segundo a BBC, é produzida a partir do poliéster, um tipo de resina plástica derivada do petróleo e que demora 200 anos para se desintegrar. Com o passar do tempo, as roupas se desgastam e liberam microplásticos que acabam na atmosfera, afetando o ecossistema do deserto.
