Em 1984, há 42 anos, Amyr Klink se tornou a primeira pessoa a atravessar o Atlântico Sul a remo, da Namíbia à Bahia. Em sua primeira grande expedição como navegador, passou cem dias isolado entre o céu e o mar, remando cerca de 8 horas por dia. Sem internet ou GPS, calculava sua posição com base nas estrelas e só conseguia se comunicar por rádio poucas vezes por semana.
A preparação para a expedição foi tão difícil quanto a própria travessia. Primeiro, Amyr precisou desenvolver uma embarcação adaptada às suas necessidades: deveria ser leve para remar e, ao mesmo tempo, comportar os mantimentos e a água necessários para todo o percurso.
Além disso, o barco não poderia virar. Sozinho no oceano, uma capotagem terminaria em morte certeira. Ele projetou o barco com o engenheiro naval José Carlos Belford, que alertou que uma embarcação imune às capotadas é praticamente impossível. A solução foi construir um barco com um mecanismo que permitisse retornar sozinho à posição original após virar, como um “joão-bobo”. Durante a expedição, Amyr capotou três vezes na costa da África e, em todas, o barco se virou sozinho.
A alimentação também exigiu uma solução engenhosa, desenvolvida especialmente para a travessia. Amyr levou 275 litros de água e precisava limitar o consumo a menos de três litros por dia. Por isso, utilizou alimentos desidratados que podiam ser preparados com água do mar.
Ao longo da travessia, enfrentou problemas físicos e técnicos, além de se deparar com diversos animais marinhos. Registrou essas experiências em um diário, que serviu de base para o livro Cem dias entre céu e mar, que se tornou um best-seller.
Neste ano, a história foi adaptada para as telas de cinema com o filme 100 dias, dirigido por Carlos Saldanha e estrelado por Filipe Bragança, que interpreta Amyr. O longa chega aos cinemas em 29 de outubro.
Em entrevista à Superinteressante, Amyr Klink relembrou outros detalhes de sua travessia histórica e falou sobre a adaptação cinematográfica. Confira a entrevista completa:
- Como foi revisitar mais uma vez sua travessia do Atlântico, agora pelo cinema? Tinha algum aspecto ou momento da história que você fazia questão de preservar na adaptação?
Fiz questão de não me envolver com o filme, porque entendo que é outra obra. Sei que há autores de livros transpostos para o cinema que ficam chatos, começam a dizer: “Não, não foi bem assim” ou “Liberdade poética, aqui não”. Mas tenho muito apreço pelo Saldanha e fiz questão de, nas primeiras reuniões que tivemos, dizer: “Olha, o filho é seu”.
Mas no final, fiquei muito impressionado com o preciosismo histórico dele. Eles foram às raias da loucura para refazer detalhes absolutamente indispensáveis no filme. Eu, por exemplo, não uso nenhum adereço no corpo: nem piercing, nem tatuagem, nem nada. Mas, na travessia, usei um colarzinho com uma cruz de ouro que ganhei de uma senhora, Natália Falzoni. Foi uma brincadeira dela. Ela disse: “Amyr, essa correntinha você vai levar, mas vai me devolver”. Foi quase um desafio. No filme, fizeram para o Filipe Bragança uma correntinha e as camisetas iguais às que usei na viagem. Refizeram tudo.
O barco que eles usaram é uma réplica encomendada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). É uma réplica absolutamente igual, que navega. Ela é tão perfeita que, quando olho para os dois barcos juntos, não sei em qual deles viajei. E essa réplica navegou pela primeira vez com o Filipe Bragança.

- Você inclusive fez visitas ao set de filmagem. Como foi acompanhar um pouco das gravações? O que você sentia?
É um ato de heroísmo. Porque, pelo amor de Deus, a paciência que tem que ter para fazer um filme! Fui uma vez ao set em Paraty, e outra vez à piscina que a produção montou aqui em São Paulo, com não sei quantos milhões de litros de água.
Acho que o Filipe sofreu bem mais do que eu. Eles construíram uma máquina de fazer ondas, e ele tomou água na cara. Deve ter engolido água da piscina, coisa que não aconteceu comigo.
- Um ponto interessante é que o livro fala muito brevemente da sua relação com os seus pais, mas o filme aprofunda mais esse lado pessoal. Como foi para você trazer para o público essa dimensão da sua história?
Foi um período complicado da minha vida. Eu fui escondido da família. A única pessoa que sabia o que eu estava fazendo era minha mãe. Ela ficou horrorizada, mas era uma pessoa muito bem-humorada e levou a situação meio na brincadeira. Ela me ajudou a traduzir os manuais de sobrevivência do sueco, do alemão e do francês. E eu tinha uma relação muito complicada com o meu pai. Ele era um homem difícil, violento. O Saldanha quis colocar esse recorte.
Meu pai ficou endoidecido quando leu, no jornal O Estado de S. Paulo, que um brasileiro chamado Amyr iria atravessar o Atlântico remando. Ele disse: “Eu sou o último a saber!”. Brigou comigo, e ficamos sem nos falar. No final, houve uma reconciliação no meio do Atlântico, quando alguns radioamadores foram procurar meu pai e o colocaram na linha. Ele tinha um sotaque árabe forte, que o Felipe Camargo reproduziu. Não sei como ele descobriu esse sotaque.
- Antes da viagem, você reuniu um extenso material de pesquisa, o “dossiê amarelo”. Nessa preparação, como você decidiu que já sabia o suficiente e estava pronto para partir?
Fiquei impressionado com as tentativas de travessia a remo do Atlântico Norte que não deram certo. Foram várias. No Atlântico Sul, ninguém tinha feito. E eu não tinha a menor pretensão de morrer no mar, tinha bastante medo. Então, tinha que fazer direito.
O que mais me chamou a atenção foi que os erros cometidos pelos outros remadores eram absolutamente singelos. Tinham a ver com a falta de uma dieta balanceada, os cuidados necessários para traçar a rota e o desconhecimento de astronomia. Eu fui correndo atrás da solução para essas falhas minúsculas. Não tinha nada a ver com a distância, com o ineditismo ou com as ondas de 15 m de altura. Eram falhas muito simples de serem corrigidas. Mas elas tinham que ser percebidas e identificadas.
Esse trabalho foi, para mim, tão prazeroso quanto a viagem. Fui aprendendo coisas que não sabia, tornei-me radioamador internacional, aprendi astronomia e a navegar sem GPS ou internet. Pouco a pouco, fui juntando as peças. Fazer a travessia não era o sonho da minha vida, mas, de repente, virou um projeto. Era um projeto completamente maluco, mas era um projeto. E, no fim, foi uma experiência feliz.
- Teve algum momento que você sentiu que o projeto estava 100% pronto?
Não, esse momento nunca existiu. Sou exigente e sabia que o projeto nunca estaria perfeito. Essa busca doentia pela perfeição é muito perigosa, porque chega uma hora em que você precisa começar.
Eu sabia muito bem quais eram os riscos e, por incrível que pareça, os maiores não estavam no oceano, na travessia ou nas condições físicas. Eram os problemas burocráticos, porque o regime do apartheid ainda estava em vigor na África do Sul e na Namíbia.
As autoridades sul-africanas não gostaram quando souberam que vinha vindo um brasileiro doido que iria tentar deixar o sul da África em direção ao Brasil sem vela e sem motor. Foi uma maratona de problemas burocráticos.
- Como foi o cálculo da quantidade de itens essenciais como comida, água, sabão, papel e pasta de dente? Algo faltou?
Eu calculei para levar o mínimo possível, mas para ter o máximo de conforto e eficiência. Não podia ter muita redundância, porque o barco é pequeno. Só de suprimentos, era quase um terço do peso do barco.
Tive a felicidade de encontrar um grupo de nutricionistas do Paraná que se encantou pelo desafio técnico do projeto e fez um trabalho absolutamente espetacular. Nunca tinha tido notícia sobre uma proposta semelhante no mundo. Elas fizeram uma dieta em que eu cozinhava com a água do mar.
A água do mar tem excesso de sal, e resolver esse problema não é simples. Mas elas acharam um meio através de alimentos desidratados, liofilizados e com remoção completa do cloreto de sódio. Foi um aprendizado para todo mundo.
Participei da montagem e da construção do barco, então sabia identificar quais ferramentas e peças de reposição precisava levar. Também levei dois painéis fotovoltaicos.
- No seu livro, você relata que estava lendo Cem anos de solidão durante a travessia e que acabou jogando alguns dos outros livros ao mar por causa do peso. Como você escolhe os livros que leva para uma expedição?
Eu não levei livros, essa é a verdade. Levei livros técnicos de navegação, tábuas e almanaques para fazer os cálculos astronômicos. Porém, quando já estava na Namíbia, conheci uma menina que ficou muito amiga minha. Ela me deu o livro do Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão, na versão em inglês.
Eu já tinha lido em português e em espanhol, mas não em inglês. Não é tão legal, mas era o que eu tinha. Guardei o livro no fundo do barco, ao lado da parte interna da cana do leme. Um dia, um tubarão desastrado deu uma pancada no leme com tanta força que a cana esmagou os Cem anos de Solidão. Quando vi o livro todo sanfonado, pensei que, se o tubarão tivesse batido na barriga do barco, eu teria naufragado e morrido. Guardo esse livro até hoje.
- Você recebeu diversas visitas de animais marinhos, além de avistar algumas barbatanas que nunca conseguiu identificar. Como era o protocolo de ação nesses momentos? Algum momento te assustou fora do normal?
Conversei com outros navegadores que já haviam feito travessias em embarcações muito pequenas. Um deles, Gérard d’Aboville, escreveu um livro que me impressionou muito. Fui à França conversar com ele, e ele me contou todos os problemas que enfrentou durante a travessia. Um dos problemas interessantes era sobre tubarões. Ele me falou: “O tubarão não come o barco, mas ele vai se esfregar toda madrugada para saber se você é comestível e saboroso. Não se assuste com isso, é normal.”
Aconteceu exatamente isso. No começo da viagem, começaram a aparecer muitos tubarões, e eu me acostumei. Só que, no meio da viagem, eles mudaram de atitude e começaram a agredir o barco. Não era só se esfregar.
Teve um dia que criei a coragem de mergulhar para ver o que era. Descobri que o problema era a tinta que pintei o fundo do barco. Era uma tinta especial para não criar craca. Nas primeiras semanas, quando os tubarões se esfregavam, arrancavam essa tinta. Onde ela saiu, começou a crescer um crustáceo chamado percebe. Os tubarões passaram a bater neles para soltá-los no mar e atrair os dourados. Ou seja, os tubarões estavam me usando como instrumento de pesca.
Tive que inventar um sistema de arrancar esses crustáceos sem arrancar a tinta. Não podia usar uma espátula, e demorou alguns dias para desenvolver esse processo.
Mas eu tinha vários protocolos, até para as baleias. Quando eu estava a poucos dias do litoral brasileiro, descobri um grupo de golfinhos que não tinha bico. Era um dia de ondas grandes e vento favorável. O barco estava andando rápido e, de repente, quando eu estou no topo de uma onda, olho em volta e percebo que não eram golfinhos. Eram filhotes de baleia. Em volta tinha um círculo de baleias jubarte gigantescas que andavam em círculos para proteger os filhotes. Batizei esse capítulo do livro de “A creche das baleias”.
- Depois de décadas navegando, você conseguiu perceber alguma mudança que atribui à crise climática do planeta?
Sim. Acho que meu testemunho não tem nenhum valor científico, porque a gente tem um histórico muito recente.
Eu me especializei nos anos seguintes da travessia em viajar para a Antártica, fiz várias dezenas de viagens. Nas primeiras, quando eu fiquei dois anos no mar, passei um verão inteiro na Antártica, quando tem 24 horas de sol. Às vezes, eu ficava sem camisa ou até pelado. Nunca passei uma casquinha de protetor solar.
Depois, mais recentemente, eu fui para a Antártica de novo. Um dia, tirei a roupa e fui tomar um banho pelado. Saí, dei uma nadadinha até um bloco de gelo e voltei correndo. Depois esfreguei a neve no corpo para tirar o sal. Fiquei uma hora no sol para secar, e eu tive queimaduras muito graves. A ação hoje dos raios ultravioleta é notável. Você percebe que houve uma mudança.
