Apesar de os tesouros enterrados serem parte do imaginário popular quando se fala em pirataria, a verdade é que os piratas quase nunca faziam isso. A ideia de colocar os espólios em um baú, escondê-lo em um lugar secreto e colocar a localização em um mapa para que pudessem ser recuperados anos depois é, quase que em totalidade, um produto da ficção.
Isso porque, para os piratas, não havia muito sentido em armazenar ou esconder seus espólios. O objetivo principal do saque era convertê-lo rapidamente em riqueza: dividir o tesouro entre a tripulação, comprar suprimentos, gastar em portos, trocar mercadorias ou vender por dinheiro.
Há pelo menos duas exceções notáveis. A primeira é o bem documentado caso envolvendo o corsário britânico Francis Drake: em 1573, depois de atacar uma caravana espanhola que transportava ouro e prata no Panamá, ele e seus homens enterraram temporariamente o saque porque não conseguiam transportá-lo todo até os navios. Eles deixaram homens para guardá-lo e voltaram para recuperá-lo pouco depois. Ou seja: era uma solução logística temporária, não um “cofre” destinado a permanecer escondido durante anos.
O segundo caso, mais famoso e mais polêmico, é o do pirata William Kidd. No ano de 1699, ele supostamente enterrou uma quantidade considerável de tesouro na ilha Gardiner, em Nova York, antes de seguir viagem para Boston. Kidd enfrentava acusações de assassinato e pirataria e sabia que seus bens provavelmente seriam confiscados.
O tesouro foi descoberto ainda na época pelas autoridades (não se sabe se total ou parcialmente) e usado como prova contra Kidd no seu julgamento em Londres. Novas buscas foram feitas em Gardiner, mas nada mais foi encontrado.
Mas por que esse caso é “polêmico”? Porque há boas chances de que o tesouro nunca tenha sido realmente enterrado.
Tudo que sabemos sobre Kidd nesse caso vem de dois relatos: o de John Gardiner, dono da mansão da ilha, e do próprio Kidd em seu julgamento. Nenhum dos testemunhos menciona o enterro do tesouro, e sim que Kidd entregou os espólios a Gardiner para que este tomasse conta. É possível que, durante o julgamento, a história tenha sido aumentada para vilanizar a figura do pirata, uma vez que o caso foi um grande escândalo na época.
De qualquer forma, foram Kidd e seu suposto tesouro que alimentaram a criação de várias histórias de ficção da era vitoriana em que, aumentando o espírito de aventura, havia tesouros enterrados como elemento central da trama, incluindo O Escaravelho de Ouro, de Edgar Allan Poe, publicado em 1843.
Mas foi na virada do século 19 para o 20 que o tema da pirataria realmente explodiu na cultura pop com o lançamento de A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, de 1883, responsável por imortalizar vários clichês do gênero como mapas e tesouros enterrados, papagaios falantes, pernas de pau e o castigo de andar na prancha. Outro livro importante para consolidar esse mito foi Peter Pan, de James M. Barry, de 1904.
