Qualquer pessoa que já tenha soltado os fonemas /pa.si.ˈaɾ/ do lado de um cachorro sabe: o cérebro deles consegue, sim, processar um pouco da nossa fala. Não muito, mas o suficiente para que ele possa ouvir aquele conjunto específico de barulhos no meio de uma frase e entender como uma palavra distinta.
No fim das contas, é possível que eles tenham aprendido esse truque com a gente. Em novo estudo publicado na revista Science, pesquisadores da Universidade Eötvös Loránd, na Hungria, descobriram que os cães segmentam as palavras de uma maneira antes observada apenas em seres humanos: a partir das consoantes.
Para comparar a maneira como humanos e cachorros processam as palavras, os pesquisadores colocaram eletrodos na cabeça de voluntários de ambas as espécies, e tocaram gravações de palavras sem sentido. Analisando os registros das ondas cerebrais, o estudo, lançado no final de setembro, constatou semelhanças em como os cérebros davam preferência a certos sons.
A fala humana é, na prática, uma sequência de barulhos, que geralmente podem ser classificados como vogais ou consoantes. A partir dessa divisão, o cérebro separa e organiza o som contínuo da fala em unidades menores, ou seja, palavras. Para facilitar esse recorte, o cérebro se concentra mais em apenas um desses sons – as consoantes.
“Embora as vogais sejam mais sonoras e perceptíveis, as consoantes geralmente formam o esqueleto das palavras. Em um fluxo contínuo de fala, é mais fácil identificar palavras individuais quando nos concentramos nas consoantes. E, desde a infância, é exatamente isso que o cérebro humano tende a fazer”, disse em nota o neurocientista Attila Andics, que coordenou o estudo.
Esse fenômeno – o viés das consoantes – é observado nos humanos desde a infância, quando os bebês ainda estão aprendendo a falar. É o motivo pelo qual as abreviações que usamos em mensagens de texto (“vc”, “pq”, “tbm” e etc.) tendem a omitir apenas as vogais. Para nós, as consoantes carregam mais informação.
Até então, pensava-se que esse viés era exclusivo dos seres humanos. A linguagem em si é um traço distintamente humano, e, antes de tudo, extremamente complexo, de forma que o cérebro teve que se adaptar de maneiras muito específicas para dominar a fala.
Para os cientistas, porém, ainda não estava claro se o viés das consoantes surgia apenas por causa dessas capacidades linguísticas complexas do cérebro humano, ou se esse traço poderia aparecer em espécies menos adaptadas à linguagem.
O melhor jeito de testar isso, na avaliação dos pesquisadores, seria olhar para os cachorros. A partir de estudos comportamentais e neurocientíficos, cientistas já sabiam que os cães eram capazes de processar a fala de maneira eficiente, incluindo um vocabulário limitado e a capacidade de reconhecer uma palavra distinta no meio de uma frase. Além disso, vivendo ao lado de humanos, os cães sempre estão em contato com a linguagem (diferente, por exemplo, de um rato de laboratório).
O experimento, então, comparou as ondas cerebrais de 20 adultos e 20 cachorros, enquanto eles escutavam falas contínuas compostas por palavras de três sílabas sem significado nenhum (basicamente a mistureba de sílabas que você esperaria ouvir de um personagem do The Sims). Essas palavras seguiam padrões de vogais ou consoantes, havendo também aquelas que não seguiam nenhum padrão específico.
Ao analisar as leituras cerebrais, os cientistas se basearam em um fenômeno chamado sincronização neural – quando, durante uma conversa, o cérebro alinha o ritmo de sua atividade com os sons que ele ouve. Quanto melhor o cérebro detecta o padrão em um som, mais marcado fica o ritmo da atividade cerebral; então, se os cães tivessem uma preferência pelas consoantes, seus cérebros também expressariam um ritmo mais marcado ao identificar as consoantes nas palavras.
“Nos fluxos de fala estruturados por consoantes, os cérebros dos cães, assim como os cérebros humanos, sincronizaram-se com sucesso com o ritmo das palavras. Em ambas as espécies, essa sincronização foi mais forte do que nos fluxos estruturados por vogais ou nos fluxos de controle. Essa é a primeira evidência de que um viés consonantal também pode surgir no cérebro de uma espécie que não a humana”, disse a psicóloga Kinga G. Tóth, coautora do estudo, na mesma nota.
O tempo do cérebro dos cachorros também coincidia com o dos humanos: depois que uma palavra estruturada por consoantes começava, demorava cerca de 400 milissegundos para que ambas as espécies mostrassem alguma mudança nos impulsos elétricos do cérebro.
Esses mesmos traços foram observados até em cães que passaram os primeiros meses de vida em abrigos, ou seja, tendo pouco contato com a linguagem humana. Segundo os pesquisadores, a relevância disso está no fato de que esse viés pode ser adquirido mesmo depois dos primeiros meses de desenvolvimento do animal. Isso sugere que o viés das consoantes pode ser algo aprendido.
Claro, humanos e cachorros não processam a fala de maneiras inteiramente iguais. O estudo observou que, apesar de ambos os grupos serem capazes de identificar palavras com base nas consoantes, apenas os humanos conseguiam identificar, também, aquelas estruturadas a partir de vogais – ainda que não tão bem. Além disso, o cérebro humano conseguia se alinhar a outros ritmos além das consoantes, identificando ao mesmo tempo cada som da fala como uma unidade separada.
