A Peste Negra afetou praticamente todas as esferas da sociedade europeia do século 14, dizimando entre um terço e metade da população do continente, além de mudar a forma como as pessoas viviam, trabalhavam e se organizavam. Entre os efeitos pouco lembrados dessa epidemia, porém, está a queda da biodiversidade local, que também sofreu com o abandono do campo.
Ao contrário do que o senso comum sugere, as atividades humanas no campo favoreciam a biodiversidade na Europa medieval. Em vez da monocultura da agricultura moderna, camponeses combinavam vários tipos de lavoura com bosques, charnecas e lagoas. Essa mistura de ambientes, chamada de mosaico, criava mais habitats para que diferentes espécies de plantas pudessem prosperar.
Isso mudou com a chegada da Peste Negra. Como consequência da epidemia de peste bubônica, causada pela bactéria Yersinia pestis, grandes extensões de terras cultivadas foram abandonadas, em meio ao caos social e à perda de milhões de vidas. Sem o cultivo que mantinha esses ambientes variados, a biodiversidade diminuiu: nessas áreas, as espécies de plantas caíram cerca de 40%.
Essas conclusões são resultado de um artigo publicado na revista Ecology Letters, que comparou mais de 100 locais de coleta de pólen, totalizando cerca de 4.600 amostras coletadas. Os locais vão desde as porções norte, noroeste e oeste da França e as áreas do sudoeste do Reino Unido até os Alpes suíços.
Os registros polínicos foram estudados porque fornecem informações sobre a biodiversidade do passado. Exemplo disso são cereais, como o trigo, a cevada e o centeio, que formavam uma parte fundamental da agricultura medieval. A presença de pólen nesses tipos de cultivo é indicativo de que havia lavouras por perto.
Pesquisadores dividiram os dados sobre pólen em três categorias, com base na presença de pólen de cereais: locais onde a produção agrícola aumentou, locais onde ela diminuiu e locais onde não houve evidências de cultivo de cereais. Em linhas gerais, houve um declínio na biodiversidade como um todo, impulsionado pelos locais que apresentaram uma queda na produção agrícola.
Após quase 150 anos, já no século 16, a biodiversidade voltou a crescer, até superar o nível anterior à Peste Negra, acompanhando a retomada do crescimento demográfico e o retorno das atividades humanas no campo.
O terrível século 14
Para os pesquisadores, o período da Peste Negra é a oportunidade perfeita para investigar os efeitos da ação humana sobre a biodiversidade. Além da epidemia da peste bubônica, as décadas anteriores já haviam sido um período tumultuado para a Europa. Durante o episódio que ficou conhecido como a Grande Fome, o clima frio e úmido do início do século provocou a perda generalizada de lavouras e níveis sem precedentes de fome, entre 1315 e 1317.
Com a diminuição da biodiversidade observada nesse período, o estudo reforça uma hipótese cada vez mais aceita: a de que a modificação das paisagens realizada por seres humanos frequentemente cria habitats mais diversificados, chamados de mosaicos. Esse modelo, por sua vez, seria responsável pela conservação de um número maior de espécies do que paisagens homogêneas.
Isso também aponta para pesquisadores as diferenças entre o uso da terra medieval e modernas – e suas consequências para a biodiversidade. Durante o século 20, a biodiversidade global sofreu uma redução de até 11%, sendo atividades humanas, como mudanças no uso da terra, poluição e alterações climáticas, as principais responsáveis. Na agricultura moderna, a prática da monocultura é um dos principais fatores para a redução da biodiversidade.
