Nenhum país teve crescimento tão expressivo no número de turistas estrangeiros como o Brasil: em 2025, o aumento foi de 37%. Chegamos ao recorde histórico de 9,2 milhões de visitantes, ante os 6,7 milhões de 2024 (ano que já havia sido recordista).
Um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicou que, entre 2019 e 2025, o Brasil foi o terceiro país com o maior aumento no número de turistas (46%), atrás apenas de Arábia Saudita e Marrocos e empatado com Malta.
Ainda assim, estamos longe do primeiro escalão. Mais gente visita a Basílica de São Pedro (11 milhões), no Vaticano, do que o Brasil inteiro. Nem precisamos comparar com as potências do setor, como França ou Itália. Tivemos menos turistas do que, por exemplo, Tunísia ou Bulgária, países pequenos e que não são destinos batidos e comuns. Por quê?
Um estudo publicado em 2019 (1) analisou as duas primeiras décadas do século (quando o Brasil sediou Copa do Mundo e Olimpíadas) e levantou as questões estruturais que impedem o turismo do País de crescer mais. Há pelo menos quatro grandes entraves. Um deles é a falta de um plano contínuo. Turismo só se desenvolve com planejamento de longo prazo. Outro é a grande variação na qualidade dos serviços.
Já viu estrangeiro passando perrengue para se comunicar no Brasil, mesmo em um destino turístico famoso? É isso. Um ranking de proficiência em inglês de 2025 (2) colocou o Brasil em 75º lugar dentre 123 países.
E o tal do “brazilcore”, que nos colocou na moda novamente nos últimos anos? Pode ter bombado camisetas amarelas, mas não há indícios de que tenha impulsionado a venda de passagens para cá.
Na verdade, a imagem do Brasil, para o turismo, ainda é muito frágil. Corrupção, violência e insegurança para viajantes mulheres e o público LGBTQIA+ fazem do País uma aventura que nem todos estão dispostos a encarar.
Não é porque de repente o Oscar descobriu o cinema brasileiro e influenciadores e fashionistas gringos passaram a se “vestir de Brasil” que o turismo cresceu 46%. É mais provável que a explicação esteja em Buenos Aires.
Um de cada três estrangeiros que recebemos em 2025 era da Argentina, que teve um aumento de 82% de turistas que viajaram ao Brasil em relação a 2024. Desde aquele ano, os custos internos elevados e a renda em queda fizeram com que passar férias no Brasil ficasse mais em conta do que no próprio país.
Os deslocamentos internos são outra questão. Um ranking de qualidade da malha rodoviária, feito pelo Fórum Econômico Mundial, colocou o Brasil em 114º de 141 países. Viajar de trem, esquece, só nos poucos e bonitos trajetos cenográficos no Sul e no Sudeste em que a maria-fumaça é mais um passeio em si do que um transporte de um ponto a outro.
Quanto aos aeroportos, o Brasil até tem, com certa frequência, aparecido bem em rankings variados. Mas, em termos práticos, um aeroporto com muitos voos diretos é melhor para atrair turistas do que um aeroporto com uma arquitetura arrojada ou serviços diferenciados.
Nesse quesito, Guarulhos, a principal porta de entrada aérea do País, é só o 47º aeroporto com mais conexões no mundo, bem atrás de Bogotá (13º), o melhor da América Latina. Viajar de avião no Brasil muitas vezes é caro, e boa parte disso tem explicação em algo que não dá para remediar.
Desafios quase impossíveis
Melhorar a infraestrutura de transportes e investir continuamente no setor de turismo são missões complexas, porém viáveis. Mas, mesmo que o Brasil ajeite a casa, é possível que a gente bata em um teto. Não são apenas essas questões de políticas públicas que impactam o setor, mas a própria geografia: o Brasil é grande demais e fica muito longe.
É muito mais fácil visitar os principais pontos turísticos de uma nação pequena e rica (ou de várias, como num mochilão na Europa) do que os do Brasil, e isso pode impactar a decisão da pessoa de onde passar férias.
Não é que, necessariamente, um país grande receba menos estrangeiros. EUA, China e México estão no top 10 da Organização Mundial do Turismo, afinal.
O caso do México é emblemático, porque é um país com problemas políticos, econômicos e de segurança semelhantes aos do Brasil, mas recebe 45 milhões de turistas por ano. Isso acontece porque, além de ter regiões de excelência de serviços turísticos (e paisagens e atrações culturais de monte, é claro), o México conta com a grande vantagem de ter os EUA como principal fronteira.
A população de todos os vizinhos do Brasil, somados, equivale a 54% da dos EUA. Se levar em conta o poder de compra, então a comparação fica mais desigual ainda. Se a Argentina tivesse 100 milhões de habitantes, e não 46 milhões, o turismo no Brasil provavelmente seria muito maior.
Voltemos à Tunísia, que também bateu recorde de chegadas de estrangeiros em 2025. Esse país do norte da África, com uma área semelhante à do Acre, recebeu 11 milhões de turistas ano passado. Além de cidades históricas, praias mediterrâneas, sítios arqueológicos, paisagens desérticas e preços acessíveis, pesa a favor a localização. Há 125 cidades com pelo menos 1 milhão de habitantes em um raio de até 5 mil quilômetros de distância da capital, Túnis.
Já o número de metrópoles do mesmo tamanho que ficam a até 5 mil quilômetros de São Paulo é de apenas 32 – sendo que 13 estão no Brasil. Ou seja, existem apenas 19 cidades estrangeiras que ficam a um hipotético voo de seis ou sete horas de distância de São Paulo. Hipotético porque nem todas têm voo direto para Guarulhos, o que complica ainda mais o cenário.
Não dá para deixar o Brasil mais perto dos grandes centros populacionais da Ásia, América do Norte, África e Europa. Não podemos esperar, nem torcer, que a população da Colômbia cresça como a da Nigéria. Então, por mais que o País ainda tenha bastante terreno para conquistar, talvez equiparar-se ao México seja algo distante demais.
Provavelmente o melhor seja ir aos poucos e mirar na Tunísia. E, claro, estimular as viagens regionais: 103 milhões de brasileiros desbravaram o próprio País em 2025 – um recorde. Sem esquecer que mais importante do que rankings de passageiros é priorizar um turismo sustentável, protegendo o ambiente e a cultura local e garantindo que os benefícios econômicos das viagens priorizem a comunidade da região.
Felipe van Deursen foi editor da Super, onde criou a extinta seção de viagem Coordenadas. Desde 2018, é colunista de viagem e história no portal UOL.
Fontes (1) “O Futuro do turismo no Brasil a partir da análise crítica do período 2000-2019”; (2) EF English Proficiency Index.
