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Quanto mais inteligente você é, menos você socializa. Será?

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Você fica feliz quando os outros cancelam planos? Precisa se preparar mentalmente para qualquer encontro social? A simples ideia de ir a uma balada já te deixa cansado? Talvez você não seja problemático, apenas inteligente demais.

Um estudo de 2016 publicado no British Journal of Psychology procurou entender “como a inteligência, a densidade populacional e a amizade afetam a felicidade moderna”. A pesquisa analisou 15 mil participantes, com idades entre 18 e 28 anos.

Os pesquisadores encontraram duas tendências principais:

1) as pessoas que vivem em áreas menos densamente povoadas apresentam maiores níveis de satisfação com a vida do que as que vivem em áreas mais densamente povoadas;

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2) as pessoas, em geral, apresentavam maior satisfação com a vida se socializavam com amigos mais frequentemente.

Só que teve um asterisco nessa história. Para a segunda tendência, os pesquisadores observaram uma exceção: pessoas com QIs maiores relataram que ficavam menos satisfeitas com a vida quando passavam mais tempo com seus amigos.

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“As conclusões sugerem, e não é nenhuma surpresa, que as pessoas com maior inteligência e capacidade de utilizá-la têm menos probabilidade de passar tanto tempo socializando, pois estão focadas em algum outro objetivo de longo prazo”, disse Carol Graham, pesquisadora de economia da felicidade e que não estava envolvida no estudo, ao jornal The Washington Post na época.

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Teoria da Savana da Felicidade

No estudo, os cientistas propõem a Teoria da Savana da Felicidade. Ela sugere que o ser humano se sente satisfeito e feliz nas mesmas circunstâncias primitivas que faziam nossos antepassados felizes na savana africana.

Essa teoria parte da ideia de que o cérebro humano, como qualquer outro órgão, evoluiu sob as condições do ambiente ancestral e, portanto, pode estar adaptado às circunstâncias que nossos antepassados enfrentavam, não necessariamente às do mundo moderno. 

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Isso significa, na visão dos cientistas, que mecanismos psicológicos específicos teriam evoluído para lidar com atividades recorrentes do passado, como trocas sociais, cuidado com crianças e outras situações que nossos ancestrais encontravam repetidamente. Quando as pessoas faziam essas atividades, elas se sentiam felizes.

Porém, ao longo do tempo, a inteligência geral teria evoluído para permitir que os indivíduos resolvessem “desafios adaptativos não recorrentes”. Podemos citar como exemplos, entre esses desafios: resolver problemas matemáticos, interpretar textos complexos, criar projetos intrincados. Os cientistas não negam que essas tarefas podem ter, sim, importância para a sobrevivência e a reprodução. Mas apontam que esses desafios são relativamente novos e não existiam para nossos ancestrais.

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É aí que vem o plot twist: as pessoas mais inteligentes seriam mais proficientes em realizar esses novos desafios adaptativos, e apresentariam um menor índice de felicidade ao realizar aquelas tarefas mais primitivas. 

Ou, trocando em miúdos: as pessoas mais inteligentes não precisariam da tribo da mesma forma que as outras. Por isso, estar com a tribo pode não produzir a mesma satisfação.

Os poréns

É importante apontar que esse estudo não determina que “gente burra é mais feliz” e nem que “gente inteligente não gosta de socializar”. O texto não diz nada disso. Pelo contrário: os cientistas deixam claro que não há evidências ainda para apontar uma relação de causalidade entre as duas coisas (ser inteligente e não querer socializar), apenas uma associação estatística, portanto mais estudos e testes precisam ser feitos para entendermos melhor o assunto.

Outro estudo que se dispôs a investigar essa relação foi publicado em 2024 e acompanhou 403 adolescentes com idade média de 12,4 anos e classificados entre os 10% superiores em capacidade cognitiva. Essa pesquisa foi para o lado qualitativo: quis investigar o porquê de pessoas mais inteligentes serem supostamente mais sozinhas.

Esse estudo identificou uma grande variedade de fatores que podem influenciar as interações sociais de uma pessoa inteligente: 

  • Gênero (a rejeição aumenta a solidão entre meninas, mas não entre meninos);
  • Aceitação e rejeição dos pares (os inteligentes são mais introvertidos, mais antagonísticos e menos emocionalmente estáveis, e também mais solitários);
  • Vitimização (sofrer bullying aumenta a solidão entre os estudantes inteligentes);
  • Tendência a procurar amigos iguais a você (as crianças inteligentes são menos numerosas, então têm mais dificuldade).

Ou seja: há muitas variáveis em jogo para levar em conta. Os estudos sobre o assunto ainda estão longe de serem definitivos, considerando a quantidade de fatores que podem entrar em jogo na hora de definir algo tão abstrato como a felicidade. Mas, se alguém um dia resolver encher seu saco por “estar sumido”, você agora tem essa carta na manga para jogar.

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