Sim, mas não exatamente como os nossos. Entre humanos, grande parte dos diagnósticos depende do relato de sintomas psicológicos subjetivos, que não podem ser medidos da mesma forma que uma febre ou uma disfunção hormonal.
Como os bichos não podem virar para o veterinário e explicar o que estão sentindo, o diagnóstico depende da observação de comportamentos. Quem convive com animais – sejam os tutores ou os biólogos da vida selvagem – sabe que as ações deles podem ser bem previsíveis. Golfinhos nadam em grupo, porcos rolam na lama, cães brincam, gatos caçam, canários cantam, papagaios repetem os sons.
Quando um animal para de demonstrar interesses ou atividades que antes eram comuns, isso deve acender um alerta para algum tipo de sofrimento ou desequilíbrio. Da mesma forma, atividades que fujam muito do padrão anterior – andar em círculos, destruir coisas, brigar mais – também devem ser observadas.
Entretanto, essa necessidade de observação humana provoca um viés: os sofrimentos mentais são mais identificados quando afetam negativamente a vida de seus donos. Muitos sintomas “inofensivos” para os humanos – como dormir demais ou chorar quando não há ninguém em casa – são clinicamente importantes e podem passar batido.
A medicina veterinária não tem um protocolo padrão para diagnóstico de transtornos mentais. Os profissionais podem seguir certos manuais ou protocolos para analisar os animais, mas nada como o DSM-5, o manual que é usado para humanos, revisado por um comitê de especialistas.
Em geral, os quadros dos animais são classificados a partir da descrição de seus comportamentos, sem necessariamente encaixá-los em uma doença ou transtorno específico.
Os transtornos mentais em animais parecem estar ligados a estresses ambientais e são mais comuns em animais em cativeiro. Para evitar o sofrimento mental, todos os animais, de pets aos de zoológicos, devem receber medidas de enriquecimento ambiental – objetos, estruturas e atividades que estimulam comportamentos naturais e ajudam a evitar que fiquem entediados. Em casos mais sérios, os animais podem receber medicação psiquiátrica receitada por um veterinário.
Criado em 1994, o modelo dos cinco domínios busca avaliar o bem-estar animal para além da mera sobrevivência. Os animais são observados em cinco grandes categorias: nutrição, ambiente físico, saúde, comportamento e, por fim, estado mental.
O estado mental é inferido a partir do resultado dos quatro anteriores, considerando que privações físicas e comportamentais provocam estados mentais e afetivos negativos. Por exemplo: é razoável inferir uma saúde mental ruim a um animal sujeito a fatores como fome, desconforto térmico, doenças ou lesões e sem liberdade para expressar comportamentos naturais.
Esses fatores físicos funcionam como um termômetro de bem-estar mental, ainda que não seja, formalmente, um manual diagnóstico com categorias específicas de transtornos, como o DSM é para humanos.
Pergunta de Ronaldo Magalhães, Fortaleza (CE).
