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Decepada de mortos e usada para invadir casas: o que era a Mão de Glória, o artefato mais bizarro do século 18

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No século 18, eram comuns na Europa os grimórios (embora esse termo não existisse na época), livros com instruções sobre magia, ocultismo, astrologia, alquimia, medicina popular, adivinhação e práticas religiosas ou rituais. Esses livros eram geralmente manuscritos, mas às vezes também impressos, e traziam textos que, em muitos casos, circulavam havia séculos, sendo copiados, modificados e combinados com novos materiais. 

Entre os conteúdos desses livros havia invocações para espíritos e demônios, formas de confeccionar talismãs e amuletos mágicos; fórmulas para obter proteção, riqueza e amor; receitas medicinais; instruções para rituais e muito mais. Basicamente, qualquer tipo de conhecimento que tivesse algum pézinho no misticismo ou em pseudociências estava valendo.

Um dos grimórios mais famosos é Le Petit Albert, de 1722, que ensinava como produzir algo bastante macabro: uma Mão de Glória. Esse artefato sobrenatural foi primeiramente descrito (ainda sem nome), em 1440 na Inglaterra e apareceu nomeado pela primeira vez em 1707 na língua inglesa. Mas foi Le Petit Albert que o tornou famoso.

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Mão de Glória: o que é e como fazer

A Mão de Glória consistia na mão decepada de um criminoso morto, cortada enquanto ele ainda estava pendurado na forca, usada como castiçal para uma vela. Esse item supostamente agia sobre pessoas que estavam dormindo, provocando um efeito que as impedia de acordar. Por isso, era cobiçado por ladrões, que os usavam para invadir casas à noite e garantir que não seriam descobertos.

Geralmente, usava-se a mão direita do falecido como Mão de Glória — mas, se ele tivesse cometido um assassinato, utilizava-se a esquerda. Em algumas versões, a mão não era usada para segurar uma vela e, sim, tinha um dos próprios dedos do morto acesos com fogo. Em ambos os casos, a luz não podia ser apagada com água ou com os dedos, mas apenas com sangue ou leite “azul” (desnatado).

Para criar uma Mão de Glória, a mão do morto precisava ser preparada antes. Segundo o guia do Le Petit Albert, ela era envolta em uma mortalha e conservada em uma mistura de sal, salitre, pimentas e vários fluidos corporais. Em seguida, era seca ao Sol durante o verão ou assada em um forno. A vela era feita com a gordura do próprio criminoso executado, misturada com cera virgem e gergelim.

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Outra receita, contida no texto britânico “Uma verdadeira receita para conservar e obter uma Mão de Glória, bem como para confeccionar uma Vela de Glória”, está descrita em um manuscrito de North Yorkshire datado de 1823. Nessa versão, a mão deve ser decepada do corpo de um criminoso na forca; conservada em sal e na urina de homem, mulher, cão, cavalo e égua; defumada com ervas e feno durante um mês; pendurada em um carvalho por três noites consecutivas; deixada em uma encruzilhada e, por fim, pendurada na porta de uma igreja por uma noite. Ao longo da noite, a pessoa que confecciona a mão precisa ficar de vigília no pórtico “e se o medo não o tiver expulsado do pórtico… então a mão terá sido verdadeiramente conquistada e será sua”.

Por que um enforcado?

O nome Mão de Glória vem do francês “maindegloire”, que, por sua vez, é uma corruptela do latim “mandragora”, que descrevia a planta eurasiana cujas raízes costumam ter forma de corpo humano. No passado, as raízes de mandrágora eram usadas como amuleto para atrair riqueza e a planta, em si, tinha um aspecto ligado à morte e ao ocultismo. Como a palavra francesa soa exatamente como “mão de glória”, acabou ficando associada à Mão abordada neste texto.

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Mais importante do que isso é a simbologia de a mão vir de um criminoso enforcado. Na Europa pós-medieval, havia a crendice popular de que o corpo do morto tinha poderes mágicos. Muita gente encostava nos mortos acreditando que isso traria cura, ou levava um pedaço da corda pelo mesmo motivo. A Mão de Glória é apenas um desdobramento dessa cultura popular.

Ainda existe uma

Atualmente, existe uma única Mão de Glória preservada, no acervo do Whitby Museum, na Inglaterra. Ela foi descoberta no início do século 20, escondida na parede de uma casa com telhado de palha no interior do país. Em seguida, foi entregue ao pedreiro e historiador local Joseph Ford para evitar que fosse perdida. Com base em histórias populares sobre tais objetos, Ford a identificou imediatamente como uma “Mão da Glória” e doou a peça ao museu em 1935.

Essa mão não tem os dedos queimados, portanto presume-se que segurou uma vela no passado. Segundo o site do museu, relatos sobre o uso de tais mãos “tornaram-se comuns em toda a Europa — da Finlândia à Itália e do oeste da Irlanda à Rússia — ao longo dos últimos quatrocentos anos”. De fato, muitas obras de arte desse período, como quadros e livros, retratam Mãos de Glória. O sacerdote e exorcista italiano Francesco Maria Guazzo, por exemplo, conhecido por escrever sobre demonologia, retratou Mãos de Glória em suas xilogravuras, que eram parte de seu trabalho para ensinar como identificar práticas associadas à feitiçaria.

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No entanto, vale dizer que tudo que sabemos sobre Mãos de Glória vem de relatos e documentos antigos, muitas vezes escritos por fontes enviesadas. É possível que muitas dessas histórias estejam temperadas com sensacionalismo ou preconceito e que, recontadas ao longo dos séculos e representadas na ficção, ganharam um ar de verdade. Mas, na prática, não sabemos com certeza se os ladrões europeus confeccionavam e usavam Mãos de Glória.

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