Não dá para dizer com certeza. A dúvida começa na própria definição do que é fazer um som voluntariamente. Onde se traçam as linhas entre produzir um som, se comunicar com sons e fazê-lo intencionalmente?
Se formos considerar apenas o que temos de registro fóssil, os primeiros animais em que há estruturas de produção sons foram os insetos. Há 250 milhões de anos, já existiam alguns animais bem parecidos com grilos de hoje em dia. A semelhança anatômica permite inferir que eles também faziam sons parecidos (1).
Essa é a evidência mais antiga de animais que produziam (e provavelmente ouviam) sons, mas não significa que eles tenham sido realmente os primeiros – nem que os sons tenham sido realmente voluntários.
A vida na Terra surgiu há cerca de 3,7 bilhões de anos, mas por muito tempo, os mares do planeta foram habitados por micróbios e outros seres simples. Era um tempo bem mais silencioso, com sons de vento, chuva, vulcões e ondas. Talvez os seres vivos até fizessem algum som, como o barulho da movimentação da água, mas não era intencional. Pelo que se sabe, não há evidência de que eles tivessem estruturas especializadas para produzir nem para ouvir sons.
As coisas começaram a mudar mais de 3 bilhões de anos depois, há cerca de 500 milhões de anos, durante a Explosão Cambriana. Foi quando muitas novas espécies surgiram, se diferenciando diante das novas condições de vida do planeta. Infelizmente, os animais aquáticos, abundantes nesse período, quase não deixam fósseis, e fica difícil saber concluir sobre quem foi realmente “o primeiro”.
Dependendo do nível de preservação dos fósseis, os cientistas conseguem até reconstruir os sons antigos com base na anatomia de parentes vivos próximos. A reconstrução, entretanto, compreende apenas a frequência e a sílaba básica do canto, mas os ritmos e modulações só podem ser estimados, já que dependem de fatores neurais.
Já entre os vertebrados (exceto os peixes), a discussão é bem mais complicada e ainda pega fogo. Um estudo de 2020 (2) aponta que cantar, coaxar e rugir foram invenções independentes, que apareceram várias vezes, em grupos diferentes, entre 100 e 200 milhões de anos atrás.
Mas, em 2025, outro time (que, aliás, inclui vários brasileiros) propôs algo bem diferente (3). Eles gravaram sons em 53 espécies que todo mundo achava que eram mudas e propuseram que a comunicação intencional por som surgiu uma única vez, há cerca de 407 milhões de anos, no ancestral comum dos vertebrados que respiram pelo nariz. Se estiver correto, os vertebrados podem ter começado a fazer sons antes dos insetos, só que sem deixar fóssil para provar.
Só que nem todo mundo comprou a ideia. Há quem argumente que gravar um som não prova que o bicho esteja “conversando”, e que os critérios para chamar algo de comunicação não ficaram claros. Voltamos para a pergunta do primeiro parágrafo: onde se traçam as linhas entre produzir um som, se comunicar com sons e fazê-lo intencionalmente?
Fontes “Fossils Reveal When Animals Started Making Noise”, Scientific American; (1) artigo “Reconstruction of an extinct soundscape reveals ultrasonic communication in the Jurassic”; (2) artigo “The origins of acoustic communication in vertebrates”, Nature Communications; (3) artigo “Common evolutionary origin of acoustic communication in choanate vertebrates”, Nature Communications.
