A poeta, ensaísta e tradutora canadense Anne Carson foi laureada com o Prêmio Nobel de Literatura de 2026, anunciado na manhã desta quinta-feira (8), em Estocolmo, na Suécia. Segundo a Academia, Carson foi escolhida “por sua obra ousada e inventiva que, em diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea”.
Ao contrário de outras categorias do Nobel, o Prêmio de Literatura reconhece o conjunto da obra de um escritor. Carson, de 76 anos, é celebrada por livros que cruzam as fronteiras entre poesia, ficção e erudição acadêmica, frequentemente inspirados na literatura grega. Há mais de 30 anos, também é professora de Estudos Clássicos.
“Eles são todos loucos”, disse Carson sobre a vitória, em entrevista à emissora pública RUV, na Islândia – país onde vive desde 2008 e do qual se tornou cidadã. Brincadeiras à parte, ela diz que vê um propósito particular na poesia contemporânea: “Acho que ela talvez seja mais útil do que a prosa neste momento, porque é mais rápida e todo mundo vive com pressa”.
Mas, vale dizer, Anne Carson não escreve apenas poesia. Entre suas principais obras citadas pelo comitê do Nobel estão Eros, o doce-amargo, um livro de ensaios sobre o deus grego do amor publicado em 1986, e Vidro, Ironia e Deus (1995), uma coletânea de ensaios e de poesias que fala de amor, perda, identidade e a tensão entre o sagrado e o profano.
O comitê também destacou sua obra mais conhecida, Autobiografia do vermelho (1998), um romance em versos inspirado em fragmentos do antigo poeta grego Estesícoro. A obra reimagina o mito de Gerião – o gigante de três cabeças morto por Hércules – como a história de um adolescente moderno que vivencia desilusões amorosas e o desejo.
Carson nasceu em Toronto, Canadá, em 1950, mas só começou a se interessar pela língua e pelos textos da Grécia Antiga no ensino médio. A paixão a levou à Universidade de Toronto e, depois, à docência em instituições canadenses, à medida que sua carreira literária ganhava impulso. Mais tarde, passou a lecionar também em Cornell e na Universidade de Nova York.
Carson é uma pessoa reservada; sabemos pouquíssimo sobre sua vida pessoal. A discrição aparece até nos livros: as capas raramente vêm com uma foto sua e, às vezes, não há nem mesmo uma biografia. Uma das últimas informações que ela compartilhou com o público foi em 2024, quando revelou que sofria da doença de Parkinson e que sua caligrafia havia “se desintegrado”.
Caso queira conhecer mais a fundo a escritora, oito de seus livros foram publicados no Brasil. São eles: O método Albertine, pela Edições Jabuticaba; Autobiografia do vermelho e Sobre aquilo em que eu mais penso, pela Editora 34; Eros, o doce-amargo, A beleza do marido e Antigonick, pela Bazar do Tempo; e Falas curtas e Vidro, ironia e deus, pela Relicário Edições.
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Antes do anúncio, as casas de apostas apontavam duas favoritas ao prêmio: Carson e a chinesa Can Xue, escritora conhecida pelo esstilo experimentalista. Com a vitória, Carson recebe 12 milhões de coroas suecas, cerca de 6 milhões de reais. Ela também se torna apenas a segunda mulher canadense a vencer o prêmio, depois de Alice Munro, em 2013 – e a terceira canadense em geral, atrás de Saul Bellow, 1976.
Nos últimos anos, a Academia Sueca tem tentado ampliar a diversidade entre os laureados, após críticas de que a maioria dos vencedores eram homens. Desde 2018, a escolha tem alternado entre autores e autoras. Como o prêmio de 2025 foi para o húngaro László Krasznahorkai, a maioria já imaginava que o vencedor deste ano fosse uma mulher.
O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, parabenizou a escritora no X após o anúncio. “Com sagacidade, imaginação e um estilo inteiramente seu, a poeta canadense Anne Carson reinventou os clássicos. Ela levou histórias antigas a novos públicos e transformou a maneira como pensamos sobre a literatura”, disse ele.
