Tá no nome: a principal característica que distingue os mamíferos dos demais animais é a capacidade de (pausa dramática) mamar. O surgimento desse traço só se tornou possível depois que esses animais passaram por uma série de adaptações anatômicas, que vão desde o desenvolvimento de mamilos até a criação de novas estruturas na garganta capazes de controlar a passagem dos alimentos.
É difícil cravar exatamente quando os ancestrais dos mamíferos passaram por essas mudanças – mas cientistas acabam de encontrar uma pista importante. De acordo com uma nova análise de fóssil, um distinto animal jurássico de aproximadamente 165 milhões de anos atrás pode ser o exemplo mais antigo já registrado de uma espécie capaz de mamar.
O recém-nomeado Megacauda sungei foi um ancestral dos mamíferos modernos que viveu nos lagos da atual Mongólia Interior, uma região autônoma da China, durante o período jurássico, quando os dinossauros ainda caminhavam sobre a Terra. Suas patas traseiras eram semelhantes às de um ornitorrinco, sua cauda era comprida e achatada como a de uma lontra, e sua garganta apresentava as mesmas estruturas ósseas que, hoje, ajudam os mamíferos a sugar e engolir o leite materno.
A espécie foi descrita em estudo publicado no periódico Nature, no último dia 7. Nele, pesquisadores analisaram um conjunto de fósseis encontrados em 2015 em Xiayingzi, um sítio paleontológico chinês rico nesse tipo de vestígios. Os ossos escurecidos estavam preservados em um pedaço também escuro de rocha; então, para enxergar o conteúdo dos fósseis, os pesquisadores separaram o espécime em pedaços menores e fizeram fotografias com fluorescência de raio-X.

Com os ossos iluminados, os pesquisadores puderam identificar as características de cada região preservada – incluindo o crânio, a pélvis, os membros posteriores e o rabo. Traços como os dígitos alongados das patas traseiras ou os ossos amplos do rabo, assim como os dentes capazes de rasgar a carne de presas aquáticas, indicavam que aquela criatura provavelmente estava bem adaptada para nadar e caçar na água.
Isso faria da espécie, portanto, o exemplo mais antigo de um ancestral de mamíferos adaptado para um estilo de vida semiaquático. Curiosamente, os pesquisadores também encontraram pequenos pedaços de vértebras preservados no estômago do fóssil – prováveis vestígios das pequenas presas aquáticas que compunham a dieta daquele animal.
A espécie pertence à linhagem extinta dos docodontes, os parentes dos mamíferos da era Mesozóica. Distinguia-se, porém, pelo tamanho: medindo entre 40 e 50 centímetros de comprimento e pesando entre um ou dois quilos (mais ou menos do tamanho de um gato), o Megacauda era bem maior que qualquer outro docodonte conhecido.
Olhando para os detalhes mais finos no esqueleto, algumas estruturas na garganta saltaram aos olhos dos cientistas. A criatura possuía um osso hióide, um osso em formato de U que conecta a garganta ao esôfago e à laringe. Nos mamíferos modernos, essa estrutura sustenta os músculos que empurram o alimento garganta abaixo, impedindo com que qualquer coisa sólida entre nas vias aéreas.
Na prática, é exatamente esse osso que permite com que os mamíferos engulam a comida mastigada um pedaço de cada vez (outros animais engolem tudo numa tragada só), ou que os bebês possam engolir o leite materno sem engasgar.
Comparando os ossos do Megacauda com seus parentes vivos mais próximos, os pesquisadores criaram uma reconstrução virtual da musculatura de sua garganta. A partir disso, eles concluíram que, durante a infância, a espécie também mamava da mesma forma que os mamíferos atuais.
“Esta é uma inovação evolutiva incrivelmente importante. Depois que os mamíferos mastigam sua comida, seja planta ou carne, todos engolem da mesma maneira eficiente, sem esforço”, explicou, em nota, o professor da Universidade de Chicago Zhe-Xi Luo, que coordenou o estudo.
“Uma vez que os primeiros mamíferos desenvolveram esse aparato, cada grupo pôde desenvolver dentes especializados e se diversificar para explorar uma variedade enorme de recursos alimentares. Eles poderiam ser carnívoros, insetívoros, herbívoros, onívoros ou qualquer coisa no meio disso.”
