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Tubarões-duende raríssimos são flagrados pela primeira vez em seu habitat natural; veja vídeo

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Nas profundezas do Oceano Pacífico, a mais de um quilômetro abaixo da superfície, um veículo operado remotamente encontrou uma criatura que parecia saída de um filme de ficção científica.

O animal tinha cerca de três metros de comprimento, pele em tons de rosa e cinza, um focinho longo e pontudo e uma mandíbula capaz de saltar para fora da boca em uma fração de segundo para capturar suas presas.

O encontro aconteceu em julho de 2019, perto da Ilha Jarvis, mas só anos depois os cientistas perceberam que aquelas imagens mostravam um tubarão-duende (Mitsukurina owstoni) vivo em seu habitat natural. Era a primeira vez que isso era registrado.

A descoberta, publicada na revista científica Journal of Fish Biology, reúne esse vídeo e um segundo flagrante, feito em 2024 perto da Fossa de Tonga. Juntos, eles revelam novos detalhes sobre um dos tubarões mais misteriosos do planeta.

Até então, tudo o que os pesquisadores sabiam sobre tubarões-duende vinha principalmente de animais capturados por acidente em equipamentos de pesca. Eles eram levados até a superfície, onde podiam ser filmados ou estudados por pouco tempo antes de morrer.

“Eles cativaram a imaginação de tantas pessoas, mas nunca os vimos realmente vivos”, disse Alan Jamieson, diretor do Centro de Pesquisa em Águas Profundas Minderoo-UWA e um dos autores do estudo, ao Guardian. “Na verdade, não sabemos praticamente nada sobre eles.”

Um “fóssil vivo”

O tubarão-duende foi descrito pela primeira vez em 1898, depois que um indivíduo foi encontrado em águas profundas próximas ao Japão.

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Ele costuma ser chamado de “fóssil vivo” porque é o único representante atual de uma linhagem muito antiga de tubarões, que surgiu há cerca de 125 milhões de anos. Isso significa que seus parentes já existiam quando os dinossauros ainda caminhavam pela Terra.

A aparência incomum também ajudou a transformar a espécie em uma das mais famosas entre os animais das profundezas. Seu nome popular vem de criaturas do folclore japonês conhecidas pelo nariz comprido e pelo rosto avermelhado.

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O focinho exagerado, porém, não está ali por acaso. No oceano profundo, onde quase não chega luz, encontrar alimento é um desafio. Por isso, muitos animais desenvolveram adaptações especiais para sobreviver. No caso do tubarão-duende, a principal delas está na boca.

Quando está nadando normalmente, sua mandíbula fica retraída e o animal parece ter apenas uma cabeça alongada. Mas, ao detectar uma presa, ele consegue projetar a mandíbula para frente como um estilingue, lançando os dentes para fora da boca.

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O movimento é considerado o mais rápido já registrado entre tubarões: a mandíbula avança a mais de 3 metros por segundo. Isso permite capturar peixes e outros animais mesmo que o tubarão-duende seja um nadador relativamente lento.

A descoberta

O primeiro vídeo analisado pelos pesquisadores foi feito em 2019 durante uma expedição do navio E/V Nautilus, da Ocean Exploration Trust.

A equipe explorava ecossistemas de águas profundas perto da Ilha Jarvis usando o Hercules, um veículo operado remotamente equipado com câmeras. Durante um mergulho em um monte submarino (uma espécie de montanha que fica completamente abaixo do oceano), o equipamento encontrou o tubarão-duende.

As imagens ficaram arquivadas por anos até chamarem a atenção dos pesquisadores. Em 2025, Aaron Judah, doutorando da Universidade do Havaí em Mānoa e principal autor do estudo, ouviu de colegas que poderia haver um registro da espécie no material da expedição.

“Fiquei chocado ao ouvir isso, pois não se sabia da existência dessa espécie no Pacífico Central”, afirmou Judah em comunicado.

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Ao revisar os arquivos, ele confirmou a descoberta. O vídeo mostrava um macho de aproximadamente 3,4 metros nadando a 1.237 metros de profundidade. “Ver o mais icônico de todos os tubarões de águas profundas vivo e com aparência saudável em seu habitat natural é uma honra única”, acrescentou.

O outro registro aconteceu em 2024, durante uma expedição à Fossa de Tonga, uma das regiões mais profundas do planeta. Desta vez, pesquisadores a bordo do navio R/V Dagon usaram uma câmera com isca presa a um equipamento subaquático para registrar os animais que vivem na região. Foi assim que encontraram outro tubarão-duende.

As imagens indicam que esse indivíduo estava a quase 2 mil metros de profundidade, cerca de 700 metros além do limite conhecido anteriormente para a espécie. Confira:

O registro ampliou não apenas o alcance do tubarão-duende, mas também o recorde de profundidade de todo o grupo dos lamniformes, ordem de tubarões que inclui espécies como o tubarão-branco e o tubarão-mako.

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Os pesquisadores acreditam que o animal filmado em Tonga era uma fêmea, porque não identificaram estruturas reprodutivas presentes nos machos. “O tubarão-duende é um desses animais carismáticos das profundezas que eu nunca pensei que veríamos vivos, e então vê-lo foi incrível, mas saber que colegas no Havaí também viram um foi simplesmente inacreditável”, disse Jamieson em comunicado.

Além de revelar imagens inéditas de um animal raro, os vídeos ajudam os cientistas a entender melhor onde os tubarões-duende vivem.

Antes, a espécie era conhecida principalmente em algumas regiões próximas ao Japão, Austrália, costa oeste dos Estados Unidos e partes dos oceanos Atlântico e Índico. Os novos registros mostram que sua distribuição pelo Pacífico é muito maior do que se imaginava.

“É um caso clássico de um animal de águas profundas que tem uma abundância muito baixa, mas uma distribuição geográfica absolutamente enorme”, afirmou Jamieson.

Essa informação também pode ajudar na conservação da espécie. Os registros confirmam que o tubarão-duende utiliza ambientes como montes submarinos e áreas próximas a fossas oceânicas, regiões que podem ser afetadas por atividades humanas como pesca em grandes profundidades e mineração no fundo do mar.

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Mesmo vivendo longe dos nossos olhos, esses animais podem sofrer os impactos das mudanças que acontecem no oceano.

“Novas descobertas como esta demonstram que ainda há muito a explorar em nosso lar nas profundezas do oceano”, afirmou Judah. “Dado o recente aumento da distribuição geográfica do tubarão-duende, essa espécie pode ser incluída na gestão regional e na lista de biodiversidade de uma nação, enquanto antes nem sabíamos que ela existia.”

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